“Nós dominamos o resultado”: vítimas relatam como sonho da casa própria terminou em pesadelo em Montes Claros

Pessoas atraídas por anúncios nas redes sociais afirmam ter pago valores de entrada acreditando contratar financiamentos imobiliários e descoberto posteriormente que os contratos seriam de consórcio; em apenas um grupo de aplicativo de mensagens, já são mais de 100 pessoas com relatos semelhantes
Foto: Polícia Civil / Divulgação

O sonho de sair do aluguel e conquistar a casa própria levou moradores de Montes Claros a procurar a PHD Soluções, após anúncios divulgados em redes sociais e plataformas digitais. Segundo pessoas ouvidas pelo Webterra, a proposta apresentada era vista como uma oportunidade para conseguir o imóvel, mas o que veio depois teria sido uma sequência de dívidas, frustração e dificuldade para obter respostas.

A reportagem conversou com três pessoas que afirmam ter sido prejudicadas: uma aposentada de 61 anos, uma professora de 42 e um vendedor de 38. Embora tenham histórias diferentes, os três relatam um caminho semelhante: foram atraídos pela publicidade, receberam atendimento considerado atencioso, assinaram contratos e pagaram valores de entrada. Posteriormente, afirmam ter descoberto que haviam contratado consórcios, e não financiamentos imobiliários, como acreditavam inicialmente.

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais. Na sexta-feira (4), policiais cumpriram um mandado de busca e apreensão na empresa, em Montes Claros. Foram recolhidos documentos, contratos, comprovantes de pagamento, equipamentos eletrônicos e outros materiais que serão analisados durante a investigação.


“Nós não esperamos resultados. Nós dominamos o resultado”

Entre os materiais relacionados à empresa está um quadro de acompanhamento comercial com a frase escrita à mão:

Logo abaixo, aparecem nomes de consultores e metas semanais de vendas, incluindo registros de R$ 250 mil.

Foto: Polícia Civil

Documento mostra frase motivacional e metas semanais de vendas.

A frase não comprova, isoladamente, qualquer irregularidade. O material, porém, chama a atenção das vítimas diante dos relatos sobre a forma como dizem ter sido abordadas.

Segundo elas, o primeiro contato era marcado por cordialidade, atenção e apresentação de condições que pareciam facilitar a compra do imóvel. O atendimento, afirmam, mudava depois da assinatura e do pagamento.

Mensagens deixavam de ser respondidas, ligações não eram atendidas e, segundo os relatos, as tentativas de contato presencial também não resultavam em soluções.

Três vítimas, histórias semelhantes

A aposentada de 61 anos conta que procurou a empresa movida pelo desejo de deixar o aluguel e conquistar a casa própria. Convencida pela proposta apresentada, decidiu fechar o negócio e utilizou todas as economias que havia juntado ao longo dos anos para pagar o valor da entrada.

A expectativa era avançar para a compra da casa. Segundo ela, entretanto, começaram as dificuldades para conseguir informações sobre o andamento do negócio. As tentativas de contato, afirma, passaram a ser acompanhadas de demora ou ausência de respostas.

A situação, segundo a aposentada, trouxe preocupação financeira e frustração justamente no momento em que acreditava estar mais perto de realizar o sonho da casa própria.

Uma professora de 42 anos também afirma ter chegado à empresa por meio de anúncios na internet. Ela conta que confiou na proposta apresentada durante o atendimento e decidiu assinar o contrato.

Depois de pagar a entrada, porém, diz ter percebido que a modalidade contratada não correspondia ao que havia entendido inicialmente.

A partir daí, começou a buscar esclarecimentos. Segundo ela, a dificuldade para conseguir respostas transformou o que deveria ser uma solução para a moradia em mais uma preocupação financeira.

Já o vendedor de 38 anos afirma que precisou recorrer a um empréstimo para conseguir pagar a entrada.

Ele conta que tomou a decisão porque acreditava estar dando um passo para comprar a própria casa. Sem a concretização esperada, porém, ficou com a dívida contraída para pagar a entrada e continuou arcando com o aluguel.

Relata que  a situação como uma bola de neve: uma dívida foi assumida para tentar resolver o problema da moradia e acabou se somando aos demais compromissos financeiros.

Mais de 100 pessoas em apenas um grupo

As vítimas também se organizaram em grupos de aplicativo de mensagens para compartilhar informações e buscar alternativas para os problemas relatados. Em apenas um desses grupos, já são mais de 100 pessoas, segundo os participantes.

Entre as histórias compartilhadas estão casos de clientes que afirmam ter recorrido a empréstimos para pagar as entradas e, posteriormente, passaram a enfrentar dificuldades para arcar com as novas dívidas.

Segundo os integrantes, novos relatos continuam chegando.

Para as vítimas, o que chama atenção é a repetição de um mesmo padrão: o cliente procura a empresa interessado em comprar um imóvel, recebe a apresentação da proposta, assina o contrato, paga a entrada e, depois, passa a enfrentar dificuldades para conseguir informações ou respostas.

Alguns participantes relatam ainda que o problema ultrapassou o prejuízo financeiro. Há relatos de pessoas que afirmam ter adoecido e enfrentado problemas emocionais diante das dívidas e da incerteza sobre a possibilidade de recuperar o dinheiro.

Polícia investiga suspeita de estelionato

A investigação da Polícia Civil busca esclarecer justamente como as contratações eram apresentadas aos clientes.

Conforme informado pela corporação, há suspeita de que pessoas tenham sido levadas a acreditar que estavam contratando financiamentos imobiliários, quando, na realidade, teriam aderido a consórcios.

A apuração reúne relatos de diferentes clientes, incluindo contratos com cartas de crédito superiores a R$ 400 mil e pagamentos de entrada acima de R$ 28 mil.

A Polícia Civil também investiga um caso em que o nome de uma vítima teria sido incluído no quadro societário da empresa sem autorização.

Os materiais apreendidos durante a operação serão analisados para esclarecer a dinâmica das contratações e eventual responsabilidade dos envolvidos.

As vítimas afirmam ainda que existem ações coletivas na Justiça relacionadas ao caso.

Enquanto a investigação avança, quem afirma ter sido prejudicado busca recuperar os valores pagos e encontrar uma saída para as dívidas assumidas na tentativa de realizar o sonho da casa própria.

O Webterra tentou contato com a PHD Soluções para que a empresa pudesse se manifestar sobre os relatos apresentados pelas vítimas, os contratos questionados e a investigação da Polícia Civil.

Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.

O espaço permanece aberto para manifestação da PHD Soluções e dos demais envolvidos. Caso a empresa se manifeste, o posicionamento será acrescentado à reportagem.

Leila Santos
Leila Santos é jornalista, graduada pelas Faculdades Integradas do Norte de Minas (Funorte) desde 2019, e editora-chefe do Portal WebTerra. Possui experiência nas áreas de jornalismo, televisão, assessoria de imprensa e comunicação digital, com atuação em produção de conteúdo, gestão editorial, reportagem, apresentação, entrevistas, redação, revisão de textos, roteirização, fotografia e edição de vídeos. Pauta sua atuação pela ética, credibilidade e compromisso com a informação de qualidade. Apaixonada pela leitura e por causas sociais, acredita no jornalismo como ferramenta de transformação e serviço à sociedade.