Aldeia Mãe

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

O vínculo entre mãe e bebê é muito antigo e profundamente importante. Entre os grandes primatas, os filhotes passam os primeiros meses praticamente agarrados ao corpo materno. A mãe oferece alimento, calor, proteção e segurança.

Durante algum tempo, ela é quase todo o mundo daquele bebê.
Mas a história humana parece ter seguido um caminho diferente.
Uma das hipóteses discutidas na antropologia evolutiva é que, ao longo da evolução dos hominíneos, os bebês passaram a receber cuidados também de outras pessoas do grupo. Não apenas da mãe.
Esses cuidadores são chamados de aloparentes.
Podiam ser parentes, irmãos mais velhos ou outros membros da comunidade que carregavam, protegiam, alimentavam ou ajudavam a cuidar das crianças.
Isso não tornou a mãe menos importante.
Tornou o cuidado compartilhado.

Ou seja, depender de outras pessoas talvez não seja uma fragilidade da nossa espécie.


Mas há situações em que o cansaço da mãe não é falta de organização, resiliência ou uma boa rotina.
É falta de gente.

Isso aparece de forma ainda mais clara nas famílias de crianças com deficiência ou outras necessidades de apoio.

Chamar uma mãe de forte não diminui sua carga.
E dizer que “ela dá conta” pode ser justamente uma maneira de continuar deixando que dê conta sozinha.
Talvez a pergunta mais justa não seja:
“Por que essa mãe está tão cansada?”
Talvez seja:
“Quantas pessoas estão realmente dividindo o cuidado com ela?”
A ideia de que “é preciso uma aldeia para criar uma criança” ficou tão conhecida que quase perdeu o significado.
Mas talvez ela diga algo muito concreto.
A mãe continua sendo central.

Só que estar como cuidadora principal central nunca precisou significar solitária.
Durante uma parte importante da história humana, criar crianças parece ter sido possível porque havia outros braços, outros olhos e outras pessoas por perto.
Talvez o que esteja faltando a muitas mães hoje não seja força. Falta gente.
Seja aldeia.