Tudo que escrevo são experiências vividas desde a infância. Aqui nasci e vivo. Trago lembranças que o tempo não apaga porque nasceram junto comigo, na poeira das estradas, no cheiro de chuva que vinha rodando de longe, nas vozes antigas dos mestres que me guiavam antes mesmo que eu entendesse o mundo.
Foram eles, os velhos sábios do Cerrado,
que sopraram histórias no meu ouvido:
contos de bichos e assombrações,
de coragem miúda que vira grande,
de gente que luta sem alarde,
de rios que não se entregam à seca.

No Cerrado nasceu minha arte: entre galhos retorcidos, ninhos de passarinhos nas veredas, onde o coração escuta antes da mente, e cada neblina faz plantar sementes, faz brotar poesia, num chão que guardava as vozes de Guimarães Rosa.
Há quem estude o bioma; eu o respiro desde menino, como quem aprende a decifrar o mundo pelo cheiro da terra molhada e pelo silêncio antigo das veredas.
Nós revelamos territórios que poucos conhecem:
de travessias, grandezas, poesia e contradições.
Territórios que ainda persistem.

Guimarães Rosa escreveu o sertão como quem traduz o indizível, com a ousadia de quem sabe que certas terras não cabem inteiras na língua. Eu, à minha maneira, faço o mesmo com o Cerrado.
Escrevo a partir da legitimidade de quem foi forjado por essas veredas, de quem aprendeu a ler o mundo no compasso das águas que nascem tímidas, nas raízes que insistem, na poeira que levanta sem pedir licença.
O Cerrado não é apenas o lugar onde vivo: é o lugar que vive em mim.
Me fez poeta antes que eu soubesse o nome poesia.
Me deu tom, chão, silêncio, vento, e uma escrita feita de árvores tortas, de chapadões infinitos, de floradas que surgem como milagres discretos.
Há quem diga que este bioma é seco.
Eu digo que ele é profundo.
Aqui, a vida aprende a economizar excessos para multiplicar resistências. No Cerrado, até uma nascente franzina ensina grandeza: começa pequena, mas nunca duvida do rio que pode se tornar.
O Cerrado ensina que a beleza não faz alarde, mas permanece.
E é por isso que escrevo.
Porque cada vereda guarda uma memória, cada nascente carrega um aviso, cada árvore torta revela uma sabedoria antiga que não pode ser esquecida.
Como Rosa fez com o sertão, eu faço com o meu território afetivo: transformo o que vejo, o que sinto e o que sobrevivo em poesia.
Escrever o Cerrado é minha forma de devolver ao mundo um pouco da grandeza silenciosa dessa terra que me fez. É um compromisso com a minha origem, com Salinas, com as mil tonalidades que me deram voz. É também uma resistência: manter vivo o que muitos tentam apagar.
Se o sertão “é dentro da gente”, como disse Rosa, o Cerrado, para mim, é o avesso e o direito da minha alma.
No fim, Grande Sertão: Veredas e Sal da Terra: Cerrados são histórias sobre travessia.
Travessia da infância para a maturidade,
da ignorância para a consciência,
do medo para a coragem,
do humano para o inominável.
O sertão é travessia. O Cerrado é o ponto de partida e o ponto de retorno.
A jornada do sertão de Rosa é mais longa, incerta e filosófica.
Já o meu Cerrado, que vive em mim, é casa e também travessia.
É o lugar ao qual sempre volto, porque o guardo em mim desde menino.
E sigo escrevendo porque cada texto é também uma travessia.
Não caminho sozinho: trago comigo ecos dos mestres, cheiros da infância, a força das raízes que rompem a pedra.
Quem lê o Cerrado comigo talvez descubra que, no fundo, todo mundo carrega uma vereda secreta onde guarda o que o mundo não pode apagar.
Se o Cerrado é meu território afetivo, minha escrita é o jeito que encontrei de mantê-lo respirando no coração de quem lê.





