Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) identificaram a presença do mexilhão-dourado no Rio São Francisco, no Norte de Minas, a aproximadamente mil quilômetros do registro anterior mais próximo na bacia hidrográfica. A descoberta acende um alerta para os possíveis impactos ambientais e econômicos provocados pela espécie invasora.
O resultado foi publicado na revista científica CheckList, com base em estudos de campo realizados entre julho de 2024 e abril de 2025. Durante a pesquisa, foram coletados 113 exemplares do molusco em pontos dos municípios de São Francisco e São Romão.
A equipe realizou cinco expedições e coletou amostras em 16 estações distribuídas por quatro municípios às margens do rio: São Francisco, São Romão, Ibiaí e Pirapora. A espécie foi encontrada em todas as estações pesquisadas em São Francisco e em uma estação de São Romão. Já nos pontos de Ibiaí e Pirapora e no reservatório de Três Marias, não houve registro do molusco.
O estudo foi conduzido pelos professores Magno Augusto Zazá Borges e Maurício Lopes de Faria, vinculados ao Departamento de Biologia Geral e ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais da Unimontes.

Como a espécie chegou ao Norte de Minas?
Originário da Ásia, o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é considerado uma espécie exótica invasora e pode se espalhar por ambientes aquáticos, formando colônias que afetam ecossistemas e estruturas utilizadas para captação de água e geração de energia.
Na bacia do Rio São Francisco, o registro anterior havia sido feito entre 2016 e 2017, na região da barragem de Sobradinho, entre a Bahia e Pernambuco.
A distância entre os registros levantou questionamentos sobre a forma como o molusco chegou ao trecho mineiro. Uma das hipóteses investigadas pelos pesquisadores é que pequenas embarcações tenham transportado a espécie rio acima, permitindo que ela ultrapassasse grandes distâncias e barreiras físicas.
Segundo o professor Maurício Lopes de Faria, a ausência do mexilhão-dourado em Ibiaí, Pirapora e no reservatório de Três Marias contraria a hipótese de que a espécie tenha avançado naturalmente a partir do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas, seguindo o curso do rio.
A possibilidade de transporte por embarcações, no entanto, é uma hipótese apresentada pelos pesquisadores, e não uma causa definitivamente comprovada.
Espécie pode causar prejuízos ambientais e econômicos
A presença do mexilhão-dourado preocupa pesquisadores porque a espécie forma colônias densas que podem obstruir tubulações de captação de água, sistemas de irrigação e estruturas de usinas hidrelétricas. A infestação também pode elevar os custos de manutenção e provocar danos aos equipamentos utilizados por pescadores.
No ambiente natural, o molusco compete com espécies nativas por alimento e espaço, podendo alterar o equilíbrio das comunidades aquáticas.
De acordo com os pesquisadores, a capacidade de reprodução e dispersão dificulta o controle populacional da espécie. Por isso, a identificação de novos pontos de ocorrência é considerada importante para orientar medidas preventivas.
Três Marias ainda não tem registro da espécie
Um dos pontos destacados pelos pesquisadores é a ausência de registros do mexilhão-dourado no reservatório de Três Marias. Para a equipe, esse cenário representa uma oportunidade para reforçar ações de prevenção antes que a espécie alcance outras áreas da bacia.
Entre as medidas apontadas estão a ampliação do monitoramento dos rios e reservatórios, a inspeção e a limpeza de embarcações que circulam entre diferentes bacias hidrográficas e campanhas de orientação para pescadores e operadores de turismo náutico.
A pesquisa teve início no âmbito do Projeto Opará, que monitora a qualidade da água do Rio São Francisco entre Pirapora e Januária com o apoio de um barco-laboratório. Os estudos seguem em uma iniciativa de monitoramento ambiental apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).
Os exemplares coletados foram depositados no Centro de Coleções Biológicas do Norte de Minas Gerais, vinculado à Unimontes, para garantir a preservação e a rastreabilidade científica dos registros.





