Sal da terra: Cerrados — um sonho que virou livro

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Há sonhos que nascem pequenos, quase do tamanho de uma semente. A gente os guarda no coração, rega com esperança e deixa que o tempo se encarregue de fazê-los crescer. Alguns ficam pelo caminho. Outros criam raízes tão profundas que acabam se transformando em destino.
O meu acaba de ganhar forma de livro.

Sal da Terra: Cerrados está diagramado e seguindo para a gráfica.

Em breve, deixará de ser apenas um conjunto de palavras na tela do computador para se transformar em páginas impressas, prontas para encontrar leitores, despertar lembranças e contar um pouco da história da terra onde aprendi a sonhar.


Mas um livro nunca nasce somente da escrita. Antes da primeira palavra, existe uma vida inteira.

A minha começa nas lembranças da roça, no Sítio Floresta, em Salinas, entre coqueiros, caminhos de terra, árvores generosas e histórias contadas pelos mais velhos. Começa na memória da família, nos ensinamentos dos ancestrais, no cheiro da terra depois da chuva e na paisagem do Cerrado que ensinou tanta gente a resistir, mesmo quando a vida parecia oferecer tão pouco.

Foi naquele mundo, aparentemente simples, que aprendi a perceber a grandeza das pequenas coisas. A mangaba, o murici, o jatobá, o pequizeiro, o jacú, o canto dos pássaros, a sombra das árvores e a sabedoria de quem conhecia a terra pelo nome. Tudo isso foi formando, sem que eu percebesse, o olhar do menino que um dia se tornaria poeta.

O tempo passou. Vieram outros caminhos, outras cidades, outras experiências. A vida me ensinou sobre perdas, recomeços, trabalho, amizade, esperança e resistência. Tornei-me assistente social, contador de histórias e cronista. Continuei, porém, carregando comigo aquele menino de Salinas que aprendeu a escutar o mundo antes de tentar explicá-lo.

Talvez seja por isso que escrevo. Para não deixar que as lembranças desapareçam. Para que as vozes dos que vieram antes de mim continuem encontrando ouvidos. Para que a história da nossa gente não se perca no silêncio dos dias.

Sal da Terra: Cerrados não é apenas um livro sobre uma paisagem. É um livro sobre pertencimento.

É sobre o Cerrado que resiste às secas, guarda nas raízes a memória das águas e oferece frutos mesmo em tempos difíceis. É sobre o Norte de Minas, suas veredas, seus rios, suas comunidades, sua cultura e seu povo. É também sobre a relação profunda entre a natureza e a existência humana.

O Cerrado tem muito a nos ensinar. Suas árvores parecem compreender que crescer exige paciência; suas raízes sabem que sobreviver depende daquilo que não se vê; e suas flores nos lembram que a beleza pode surgir até nos lugares mais improváveis.
Não seria essa também uma lição para a vida?

Ao longo da caminhada, encontrei pessoas que me ajudaram a acreditar na força da palavra. Professores, amigos, familiares e companheiros de jornada deixaram marcas que hoje reconheço nas páginas que escrevo. Nenhum livro é obra de uma pessoa só. Mesmo quando o nome do autor aparece na capa, muitas outras mãos invisíveis participaram de sua construção.

Por isso, enquanto vejo a diagramação concluída e imagino os exemplares saindo da gráfica, o sentimento que me acompanha é o de gratidão.

Gratidão à vida, que me permitiu chegar até aqui. À minha família, que faz parte da minha história. Aos amigos que acreditaram no projeto. E a todos aqueles que, de alguma maneira, ajudaram a transformar uma ideia em realidade.

Há uma emoção particular em ver um livro pronto para nascer. A gente sabe de onde ele veio, lembra das noites de escrita, das palavras riscadas, das ideias amadurecidas e das dúvidas que precisaram ser vencidas. Mas não sabe até onde ele irá. Depois de publicado, o livro deixa de pertencer somente ao autor. Cada leitor passa a construir sua própria travessia dentro dele.

É isso que desejo para Sal da Terra: Cerrados: que suas páginas encontrem pessoas capazes de reconhecer nelas um pedaço de sua própria história; que despertem o cuidado com a natureza; que valorizem a cultura do nosso território; e que ajudem a manter vivas as memórias de um povo que tem muito a contar.

Escrevo a partir de Salinas, mas não escrevo apenas para Salinas. Escrevo a partir do Cerrado, mas também para quem vive longe dele. Porque a terra pode ter muitos nomes, mas o sentimento de pertencimento é universal.

Talvez o maior sonho de um escritor não seja ver seu nome estampado na capa de um livro. Talvez seja saber que alguma palavra sua encontrou abrigo no coração de alguém.

Hoje, ao ver Sal da Terra: Cerrados seguindo para a gráfica, sinto que uma semente plantada há muito tempo começa a florescer.

O menino da roça continua aqui. O homem que atravessou tantas estradas também. E o poeta, esse, segue procurando palavras para dizer aquilo que a vida inteira ensinou.
O sonho virou livro. E o livro já começa a sua própria travessia.

Que ele leve consigo o cheiro da terra, a memória dos ancestrais, a força do Cerrado e a esperança de que ainda podemos aprender a cuidar melhor do mundo que nos acolhe.

Porque, no fim das contas, somos todos feitos da terra que pisamos, das histórias que herdamos e dos sonhos que escolhemos cultivar.
E é dessa terra que continuo escrevendo.