Quando o medo de perder alguém faz você perder a si mesmo

Confira a coluna Psicologia para o Dia a Dia desta semana, por Renato Mota

Existe uma verdade desconfortável sobre algumas crises amorosas: nem sempre estamos lutando pelo amor. Às vezes, estamos apenas desesperados para não sermos abandonados. É nesse momento que a carência afetiva pode transformar uma pessoa segura em alguém que implora, insiste, vigia, aceita desrespeitos e abre mão dos próprios limites para manter alguém por perto. O problema não é amar demais; é começar a acreditar que, sem o outro, você deixa de ser suficiente.

E de onde vem essa necessidade? Muitas vezes, ela tem raízes nos primeiros vínculos. Na infância, aprendemos — por meio das relações com nossos cuidadores — se o amor é previsível, se podemos confiar, se nossas necessidades serão acolhidas e se somos dignos de afeto. Essas experiências participam da construção do apego. Quem desenvolve padrões mais ansiosos pode chegar à vida adulta com maior medo de rejeição, necessidade de confirmação e hipersensibilidade aos sinais de afastamento.

Mas culpar a infância é uma simplificação perigosa. O apego influencia, mas não determina. Somos capazes de modificar padrões emocionais ao longo da vida. Novas relações, experiências de segurança, maturidade emocional e psicoterapia podem transformar aquilo que um dia aprendemos sobre amor.


O sinal de alerta aparece quando a pergunta muda de “Essa relação me faz bem?” para “O que preciso fazer para essa pessoa não ir embora?” A partir daí, algumas pessoas começam a negociar a própria dignidade: perdoam o imperdoável, toleram o intolerável e confundem sofrimento com prova de amor. Não é raro que o medo de ficar sozinho seja tão grande que a pessoa prefira permanecer em uma relação que a destrói a enfrentar o vazio que imagina existir fora dela.

Precisar de alguém é humano. Precisar de alguém para se sentir alguém é outra história. Uma relação saudável não elimina a individualidade; ela permite que duas pessoas escolham permanecer juntas sem que nenhuma precise desaparecer para manter a outra.

Talvez a pergunta mais provocativa diante de uma crise amorosa não seja “Como faço para essa pessoa ficar?”, mas “Por que estou disposto a me perder para que ela não vá embora?” É nesse ponto que uma crise de relacionamento pode deixar de ser apenas uma crise conjugal e se transformar em uma oportunidade de autoconhecimento. A infância pode explicar algumas das nossas feridas, mas não precisa ter a palavra final sobre a nossa maneira de amar.