Boa mãe não reclama. Mas eu vou reclamar.    

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Reclamar. Do latim reclamare: protestar, gritar contra, exigir o que é devido. Não é fraqueza. É posicionamento.

Existe um roteiro muito bem estabelecido para mães de filhos com deficiência. Ele funciona como um bom filme de drama: o personagem enfrenta adversidades, sofre, supera, inspira. A plateia chora, se emociona, sai do cinema pensando em como aquela história foi linda. Que personagem incrível. Que força extraordinária. Mas repare no que acontece quando esse personagem reclama. Quando ele para no meio do filme e diz: isso está errado, isso está difícil, eu não deveria estar passando por isso. De repente ele deixa de ser inspirador e vira ingrato. A plateia se desconforta. Afinal, depois de tudo que ele sobreviveu, ainda reclama?

É exatamente assim que funciona comigo. “Você reclama muito.” 


Sempre com um complemento generoso: “Pelo menos ele está com saúde.” “Podia ser muito pior.” “Tem mãe em situação muito mais difícil.”

Como se existisse uma hierarquia oficial da dor, com um comitê responsável por avaliar se o seu sofrimento é elegível para ser dito em voz alta. Durante anos eu assisti às histórias dos outros. Como terapeuta, eu estava na plateia. Quando o Mateus nasceu, entrei na tela. Virei personagem. E descobri rapidamente que personagem de drama não reclama. Personagem de drama resiste, supera e inspira. Se reclama, se desequilibra, mesmo depois de ter superado tudo, perde a simpatia do público. Porque o que sente deixa de ser validado no momento em que ousa dizer que está ruim. Eu já perdi muitos simpatizantes por conta disso. 

O problema é que eu não quero ser personagem de drama. Quero ser personagem de comédia, de romance, de uma história em que as coisas funcionam, em que os serviços existem, em que a escola está de fato preparada, em que o sistema apoia em vez de lucrar. Se as coisas funcionassem, talvez eu não precisasse reclamar tanto. Reclamar é o sintoma. O problema é o que gera a reclamação.

E enquanto o problema existir, eu vou continuar reclamando. Não porque sou dramática. Não porque sou ingrata. Mas porque reclamar é o único instrumento honesto que me resta quando o roteiro que me deram não serve para a vida que eu vivo.

A boa mãe não reclama. Eu sei. Mas eu vou reclamar assim mesmo.