Cem anos depois, a Coluna Prestes ainda atravessa o Norte de Minas

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Sempre que escrevo, busco informações em fontes nacionais amplas, e também na memória oral, local, viva, aquela que passa de geração em geração, porque é ali que muitas histórias continuam existindo, mesmo quando não estão nos livros.

No Cerrado é assim: quando a história pisa no território, ela não vai embora.


O tempo não apaga: a travessia da Coluna Prestes ainda vive, e viverá nos Gerais.

Há histórias que não passam.
Elas atravessam o tempo
e continuam caminhando dentro da gente.

Ficam nos caminhos de terra, nas serras silenciosas, nas veredas que guardam memória,
e nas histórias contadas de boca em boca.

Neste abril, o Norte de Minas voltou a pisar um desses caminhos.

Cem anos depois, ainda ecoa a passagem da Coluna Prestes pela região do Alto Rio Pardo, por terras que incluem Taiobeiras, Salinas e tantas outras localidades que compõem essa rota viva.

Entre 1924 e 1927, cerca de 1.500 homens cruzaram o Brasil em uma marcha improvável, mais de 25 mil quilômetros por dentro de um país profundo.

Uma travessia marcada não pela ocupação, mas pelo movimento constante, por estratégias de sobrevivência e despiste, como a chamada manobra do “laço húngaro”, que confundia as forças governistas e permitia à Coluna seguir adiante.

Mas quando essa história atravessa os Gerais, ela muda de peso.
Deixa de ser apenas fato.
Vira marca.
Marca no chão.
Marca na alma.

Foi esse resgate que ganhou voz na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, reunindo pesquisadores e guardiões da memória para refletir sobre essa travessia.

Estive presente e propus a criação do Dia Estadual em Memória da Coluna Prestes, transformada em Projeto de Lei pelo deputado Leleco Pimentel.

Mais que um ato institucional, foi um gesto de reparação.

Um lembrete de que o Norte de Minas nunca esteve à margem,
ele sempre esteve dentro da história.

O professor Levon Nascimento, ao lado de outros autores, trouxe à luz relatos que por muito tempo ficaram guardados apenas na memória das famílias sertanejas.

Histórias de medo, de retirada às pressas, de um povo que viu a guerra atravessar sua rotina.

Era o “tempo dos revoltosos”.
Simples no nome.
Profundo no que carrega.

O livro revela também como aqueles homens, estranhos ao sertão, precisaram aprender com a terra e com o povo para seguir vivos.

E seguir era preciso.
Porque a travessia não parava.
Talvez por isso ela ainda ecoe.

E agora, cem anos depois, essa memória ganhou um novo gesto concreto.

Nesta terça-feira, 28 de abril, às 8 horas da manhã, na biblioteca do Museu da Cachaça, em Salinas, aconteceu a entrega da Medalha Luiz Carlos Prestes, do certificado e do livro A Coluna Prestes nos Gerais de Minas.
Recebi esta homenagem das mãos do amigo Levon Nascimento.

Já que não participei do lançamento do livro no sábado, 18/04/2026, em cerimônia na Câmara Municipal de Taiobeiras/MG.

Também foi celebrado o centenário da passagem da lendária coluna tenentista em Taiobeiras e no Alto Rio Pardo (Norte de Minas).

Um momento que não é apenas cerimônia.
É continuidade.
É a história voltando para casa.

Mais do que o lançamento de um livro, este encontro marca a celebração de um centenário.
Celebração da memória.
Celebração dos caminhos que o tempo não apagou.

Taiobeiras, Salinas, Rio Pardo, Serra Nova,
deixam de ser cenário
e assumem o lugar que sempre foi deles:
o de protagonistas.

Escrever sobre isso é mais do que lembrar.
É fincar raiz.
É reconhecer que o sertão não é silêncio.
O sertão fala.
O sertão guarda.
O sertão resiste.

E, cem anos depois, a marcha da Coluna continua.

Não mais pelos caminhos de terra,
mas pelos passos da nossa memória.