Hoje é mais um dia, em 16 anos de maternidade atípica, em que ouço sobre exaustão. Relatos de cansaço físico e mental são corriqueiros e, infelizmente, constantes.
A palavra “infelizmente” reflete o cansaço do cuidador. Um termo recorrente na vida da mãe atípica, não pela deficiência do filho, mas pela dor de cuidar sem ser cuidada.
O relato foi de uma mãe que se aproximou de outra, curiosa para saber o que ela fazia para que seu filho, com trissomia e autismo, ficasse sentadinho e quietinho para comer.
A mãe abordada sorriu e respondeu que “nem sempre foi assim”.
Ela também já chorou muito e, naquela época, me fez a mesma pergunta: o que eu fiz para que o meu filho fosse bem comportado.
E eu, que também já havia chorado muito, respondi que, assim como ela, “nem sempre foi assim”.
Ser mãe é como uma tela pintada à mão pelos eventos da maternidade. Em algumas partes da tela, as cores são fortes, coloridas, mas nas partes da tela onde não há desenho (porque, sem saber como cuidar, não há registro), forma-se um buraco.
Na maternidade atípica, o desconhecimento do cuidado com o filho abre buracos que rasgam a alma. Assumem a forma de redes, com furos de diversos tamanhos, mas que, trançadas com firmeza, seguram a alma da gente.
Li um trecho de Mário Quintana, que, embora não trate diretamente de redes físicas, traz a essência do cuidado:
“O melhor da vida é a capacidade de deitar numa rede e deixar o tempo balançar por nós.”
Se alguém me perguntasse o que aquela mãe precisava naquele exato momento, eu diria: uma rede.
A rede que tanto me remete à infância, no interior de Minas.
A rede que me recorda a paz, mesmo em meio à disputa das crianças pelo espaço apertado para embalar e sentir o ventinho no rosto e o frio na barriga.
O que a gente precisa é de rede.
Ahhh… da rede que te abraça sem você pedir, que arranca um sorriso só porque você está ali.
O que a gente precisa é de rede.
Da rede que exige que você apenas estique as pernas, faça um pequeno movimento, tire os pés do chão, feche os olhos e se deixe embalar.
É dessa rede que a gente precisa.
Da rede da infância em Minas transformada em pessoas que não deixam você cair.
Da rede em que você pode tirar o pé do chão e vai embalar no sono.
Eu não caí muitas vezes nesses 16 anos porque minha rede estava amparada por mulheres que, como eu, tinham buracos na alma, mas seguiam costurando umas às outras.
Eu fui resgatada, descansei e escalei várias vezes, apoiada por essa rede.
A pesquisa científica e a conexão com muitas mães fecharam muitos buracos na minha alma.
Eu precisei, preciso e sou a rede…
Eu daria mais um conselho para essa mãe:
Encosta aí, vamos tirar o pé do chão, lançar ao alto, trocar sorrisos, sentir o vento no rosto, ficar descabelada, chorar de alegria, cantar canções alegres.
Depois, vamos reunir mulheres, costurar os buracos com nosso conhecimento e, como diz Mário Quintana:
“E deixar o tempo balançar por nós.”
Você, que está lendo este texto, eu te convido a ser rede: a rede do descanso de Mário Quintana, a rede que resgata pessoas do fundo do poço ou a rede que, lançada ao céu, vira escada para o crescimento de uma ou várias mulheres, mães atípicas.





