Reinventar e ressignificar a travessia

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Há travessias que não escolhemos.

Elas simplesmente chegam, silenciosas, duras, inevitáveis, e nos convidam a atravessar um território desconhecido dentro de nós.

A doença renal crônica é uma travessia.


Não a recebi como quem acolhe uma visita desejada.

Ela veio como chegam as grandes provas da vida: impondo limites, exigindo coragem e redesenhando os contornos da existência.

Perdi 3 rins.

E, por um tempo, pensei que a vida estivesse me retirando algo essencial.

MAS A NATUREZA, EM SUA MISTERIOSA SABEDORIA, É COMPENSATÓRIA.

E é fundamentada cientificamente, conhecida como neuroplasticidade ou plasticidade transmodal.

Quando uma pessoa perde a visão, o cérebro reorganiza suas funções para compensar essa falta utilizando os sentidos restantes, principalmente a audição e o tato.

Aquilo que aparentemente me foi tirado do corpo, a vida e a mente tratou de devolver em consciência.

SE O FÍSICO SE TORNOU MAIS FRÁGIL, A MENTE SE FORTALECEU.

É no enfrentamento das perdas, das mudanças, das dores e das incertezas que a mente amadurece, o coração se fortalece e a alma aprende novos caminhos.

Não nascemos prontos; vamos nos tornando, nós ressignificando, atribuindo um novo sentido a vida.

Não se trata de esquecer o passado, mas de mudar a interpretação sobre ele, transformando dor em aprendizado ou um fato negativo em um momento de superação, olhando as situações difíceis sob um novo ângulo.

Cada desafio vencido, por menor que pareça, deixa em nós uma marca de experiência, coragem e sabedoria. O que ontem parecia impossível, hoje pode ser apenas uma lembrança daquilo que nos fez crescer.

Em outras palavras, a aptidão nasce da travessia:
da experiência vivida,
da capacidade de aprender com os erros,
da resiliência diante das quedas,
e da fé de continuar.

Às vezes, não é que o desafio diminui — é você que se torna maior do que ele.

Se o corpo passou a pedir mais cuidado, a alma aprendeu a ouvir mais fundo.

A doença me ensinou sobre ritmo, sobre pausa, sobre a importância de respeitar os próprios limites, algo que, muitas vezes, a pressa do mundo nos faz esquecer.

Descobri que nem toda perda é ausência.
Às vezes, a perda é também revelação.

Ao perder, encontrei.

Encontrei uma mente mais desperta, um olhar mais sensível para a vida, uma capacidade maior de compreender a dor do outro e a grandeza das pequenas coisas.

A natureza tem esse dom de reorganizar o que parece quebrado.

Ela não devolve o que foi exatamente como era, mas oferece outras formas de potência.

Em mim, ela potencializou a mente.

Fez florescer pensamentos, memórias, palavras e reflexões que talvez, em outro tempo, permanecessem adormecidas.

Hoje entendo que minha travessia não é apenas sobre a doença.
É sobre resiliência.
É sobre transformar limitação em sentido.
É sobre aprender que, mesmo quando a vida nos reduz em uma parte, ela pode nos expandir em tantas outras.