Imagine a cena: você propõe a brincadeira, faz a voz animada, escolhe o brinquedo mais lindo, canta a música… entra em cena disposta a brilhar e seu filho simplesmente decide ignorar ou levantar antes do seu show terminar. Foi assim durante algum tempo aqui em casa.Mateus até respondia por um instante: olhava rapidamente e, às vezes, até sorria. Mas não permanecia. Não engajava na brincadeira. Era como se algo quase acontecesse… e se desfizesse logo depois.E eu ficava ali, segurando o brinquedo, com aquela pergunta silenciosa que toda mãe já fez em algum momento: “O que eu estou fazendo de errado?”
Demorei para entender que a brincadeira não acontece quando apenas uma pessoa está interessada nela. Isso vale para qualquer relação na vida: precisa fazer sentido para os dois. Mas, na minha história com o Mateus, houve um ponto de virada no dia em que deixei de tentar ensiná-lo a brincar e passei a observar o que realmente despertava o interesse dele. Foi aí que tudo começou a mudar.
Quando recebi o diagnóstico de deficiência do meu filho, minha primeira reação foi buscar estratégias: informações, estímulos, brinquedos educativos. A ansiedade atrapalhava, porque, na prática, eu ainda estava operando a partir do meu ritmo e desejos. A mudança não aconteceu com um “super brinquedo”. Aconteceu em uma situação simples: sentados no chão, enquanto ouvíamos uma música e ele segurava um cabo de vassoura, que ele amava. Sim, a vassoura. Porque a mãe aprende rápido que, às vezes, o brinquedo mais disputado da casa não foi comprado na loja, e que pagar mico faz parte do pacote da maternidade.
Então, quando eu diminuí a velocidade, deixei ele liderar a brincadeira e comecei a responder exatamente ao que ele fazia, se ele olhava, eu sustentava o olhar; se ele mexia a mão, eu imitava o gesto. Ele começou a tentar me acompanhar. Tentou repetir. Ali, eu entendi uma coisa que nenhum brinquedo tinha me ensinado: A comunicação começa na sincronia. Sincronia é quando a mãe entra no tempo do filho, observa antes de agir e responde ao que ele já está tentando fazer, em vez de puxá-lo para outro estímulo.
Quando o adulto ajusta seu tempo e seus interesses aos da criança, promove a possibilidade de atenção compartilhada, um dos pilares da comunicação. Afinal, o olhar que se sustenta por alguns segundos a mais, o gesto que tenta imitar o outro, o turno que começa a se organizar são os primeiros sinais de que a interação está sendo construída. Existe algo muito simples e poderoso nisso: quando a criança percebe que o adulto responde ao que ela faz, ela aprende que vale a pena tentar de novo. Esse pequeno ciclo, eu faço, você responde, eu faço outra vez, é o que sustenta a brincadeira. Eu não precisava de “super brinquedos”. Eu precisava de mais observação.Hoje eu sei que muitas mães vivem essa mesma inquietação: “Como eu faço meu filho interagir comigo?”
Talvez a pergunta seja outra: “Eu estou no ritmo dele?” Eu deixo ele liderar a brincadeira, mesmo que ela seja diferente de tudo o que eu já fiz? Já experimentou quebrar as regras da brincadeira para se conectar com o que faz sentido para o seu filho?Antes de pensar em ter um quarto cheio de brinquedos, de brincadeiras estruturadas e cheias de regras, existe algo mais importante entre vocês dois. Foi ali, no chão da sala, ouvindo a música da Galinha Pintadinha e revezando a vassoura, que a nossa brincadeira entrou em sincronia. As interações sociais começam dentro de casa.
Se seu filho não encontra isso na sua família, como você espera que ele encontre essa interação com outras pessoas na escola, no parquinho ou nas festas de aniversário?





