A morte de uma mulher de 42 anos durante um procedimento estético, registrada nesta quinta-feira (11) em Montes Claros, reacende o debate sobre o padrão de beleza e os cuidados necessários diante dos riscos associados a esse tipo de intervenção.
A pressão imposta por padrões estéticos cada vez mais rígidos tem levado um número crescente de pessoas a recorrer a procedimentos estéticos. Seja para melhorar a autoestima, retardar o envelhecimento ou atender a expectativas sociais, cirurgias como bichectomia, lipoaspiração, harmonização facial e rinoplastia se tornaram cada vez mais comuns.
Brasil é o 2° país que mais realiza cirurgias estéticas no mundo
Dados do relatório da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), divulgado em junho deste ano, comprovam essa realidade e apontam o Brasil como o segundo país que mais realiza procedimentos cirúrgicos estéticos no mundo.
Somente em 2024, foram realizados mais de 2 milhões de procedimentos cirúrgicos no país. A lipoaspiração lidera o ranking, representando 12,3% do total, com 289.766 cirurgias. Em seguida aparecem o aumento de mamas, com 9,9% (232.593 procedimentos), cirurgia de pálpebras, com 9,8% (231.293), abdominoplastia, com 8,2% (192.961), e aumento dos glúteos, com 7,1% (168.272).
Apesar da popularização dessas intervenções, especialistas alertam sobre os riscos envolvidos, que podem gerar frustrações, complicações graves ou até mesmo fatais.
Riscos
Para Victor Guimarães, médico cirurgião geral e residente do último ano de Cirurgia Plástica, o primeiro passo para quem deseja realizar um procedimento estético é buscar profissionais com formação sólida. Segundo ele, a exposição nas redes sociais nem sempre reflete qualificação técnica.
“Hoje existem muitos profissionais que se promovem nas mídias sociais como especialistas, mas, na prática, fizeram apenas cursos de fim de semana, que não garantem domínio técnico nem preparo para lidar com possíveis complicações”, destacou.
A orientação é que a verificação seja feita no site do Conselho Regional de Medicina (CRM), onde é possível consultar se o profissional está regularmente inscrito. Além disso, o médico deve possuir o Registro de Qualificação de Especialista (RQE), título que o habilita legalmente a se apresentar como especialista.
Outro ponto de atenção é o local onde o procedimento será realizado. Mesmo intervenções consideradas de baixo risco ou minimamente invasivas devem ocorrer em ambientes com infraestrutura adequada, em conformidade com as normas sanitárias e com recursos suficientes para atendimento de emergências.
A advogada Ana Paula Carvalho Gambôa, pós-graduada em Direito Médico, orienta que o paciente verifique se a clínica possui alvará da Vigilância Sanitária, além de estrutura física e equipamentos compatíveis com o procedimento a ser realizado. Ela também ressalta ainda a importância de questionar previamente aspectos essenciais, como o tipo de anestesia utilizada, a necessidade de monitorização durante o procedimento e a existência de estrutura adequada para atendimento de urgências.
“Em locais bem estruturados, normalmente existe uma sala de recuperação pós-anestésica, onde o paciente permanece sob observação após o procedimento, permitindo a identificação precoce de qualquer alteração”, explicou Victor Guimarães.
Responsabilização
Em casos de complicações graves ou até mesmo fatais, tanto a clínica, na condição de prestadora de serviços, quanto o profissional de saúde podem responder por falha na prestação do serviço, desde que seja comprovada negligência, imprudência ou imperícia.
“Podem coexistir diferentes esferas de responsabilização: a civil, com eventual dever de indenizar; a penal, que pode ser apurada por meio de investigação; e a administrativa, perante o Conselho Regional de Medicina e a Vigilância Sanitária”, informou a advogada.
Nessas situações, Ana Paula Carvalho Gambôa esclareceu que a família da vítima pode buscar a responsabilização integral, incluindo:
- indenização por danos morais, em razão da perda do ente querido;
- danos materiais, como despesas médicas, hospitalares e funerárias;
- pensão mensal, quando comprovada a dependência econômica da vítima;
- danos morais reflexos, especialmente em favor de cônjuge e filhos.
A orientação dos especialistas é clara: ao escolher um profissional para procedimentos estéticos, é fundamental verificar a formação e confirmar se ele é realmente especialista. Como destaca Victor Guimarães, ser médico não é suficiente para realizar cirurgias plásticas — é necessário passar por anos de treinamento específico, incluindo residência médica. A advogada Ana Paula Carvalho Gambôa também ressalta que o paciente deve ”priorizar sempre a segurança e a saúde, e não apenas o resultado esperado”.





