A trissomia 21 é uma sentença. A sala do médico tinha aquele silêncio de consultório; Mateus estava ao meu lado enquanto o médico folheava papéis durante a anamnese. Foi quando ele levantou os olhos e perguntou: – E então, o menino já lê? Já escreve?Respondi o que sempre respondo: que está em desenvolvimento, mas que sim, já lê e escreve um pouco. Ele encostou na cadeira, respirou fundo e disse: – Não há muito jeito. A trissomia 21 é uma sentença.
Sentença. A palavra é tão forte para uma mãe e seu filho ouvirem. Como se alguém, em algum tribunal, tivesse autoridade para decretar que ele nunca aprenderá a ler e escrever. Fiquei pensando naquele termo como quem bate o martelo no tribunal: sentença! Mas até no tribunal, onde a palavra “sentença” circula, as coisas não são assim. Uma sentença pode ser revista. Pode ser anulada. Pode ter recurso, agravo, embargos, revisão criminal, novas provas, reinterpretação.
E, mais importante: ninguém recebe sentença por ser quem é. Não existe sentença porque as pessoas nascem com olhos puxados, pele negra, cabelo crespo, nariz grande. Sentença não é sinônimo de identidade. A sentença declarada é o posicionamento de parte da classe médica sobre as pessoas com deficiência. Talvez porque acreditem que a deficiência determina o fim da vida. E, nesse caso, isso diz muito mais sobre o juiz do que sobre o réu.
A trissomia 21 não é uma sentença. É uma característica. Um capítulo do corpo, não o roteiro inteiro da vida. Mateus não é um caso encerrado. Ele é um processo em andamento, cheio de emendas, descobertas, provas novas, audiências de alegria, recursos de coragem.
Na frente do médico, há um menino que lê o mundo do jeito dele, escreve caminhos com o tempo dele, e que me ensina, todos os dias, que não existe martelo capaz de definir o tamanho dos sonhos de alguém. O que o médico não percebeu é que sentença é aquilo que termina uma história. E a vida do Mateus está só começando.





