“Esses meninos têm linguão grande mesmo.”
Foi o que disse o médico, durante a troca de plantão, ao falar com o estagiário sobre Mateus, que acabara de passar por uma cirurgia de amígdalas.
A frase ficou ecoando em mim.
É verdade que crianças e adolescentes com trissomia 21 costumam apresentar macroglossia funcional, uma condição em que a língua tem baixo tônus (musculatura flácida) e pode parecer aumentada em relação ao tamanho da mandíbula.
Mas o que não pode ser comum é esse tipo de linguagem para se referir a pessoas, ainda mais dentro de um hospital.
Pessoas não têm “linguão”, “dedão”, “orelhão”.
Elas têm nomes. E há termos técnicos apropriados para descrever suas condições clínicas.
As palavras que usamos sobre pessoas com deficiência são como sementes lançadas ao vento.
Elas voam, se multiplicam, criam raízes e perpetuam crenças e atitudes sobre características físicas e humanas.
As palavras constroem ou ferem, e o modo como falamos revela o que aprendemos (ou deixamos de aprender) sobre o outro.
Quando a língua fere, é sinal de que o coração desaprendeu a sentir.
Não é só sobre um médico ou um plantão.
É sobre todos nós, sobre o jeito apressado com que olhamos, julgamos e seguimos.
Vivemos dizendo que não temos tempo.
Não há tempo para escutar, para explicar, para conversar.
Falta tempo para educar em casa, na escola, nos corredores da escola e do hospital.
Mas, no fundo, o tempo existe.
Falta empatia. Falta responsabilidade social.
E falta coragem para rever o modo como tratamos o outro, seja no consultório, no trabalho ou dentro de casa.
Lembro-me de uma história que fala exatamente sobre não querer gastar o tempo ensinando, explicando, respondendo às perguntas do próprio filho.
Era fim de semana, e o pai havia combinado com o menino que, à noite, leriam um livro juntos.
Mas, cansado após uma longa semana de trabalho, ele só queria o silêncio e o conforto do seu jornal.
O menino insistia, cheio de vontade de estar perto.
Então o pai, tentando ganhar um pouco de sossego e fazer o mais simples, que não exigisse esforço, rasgou uma página do jornal que trazia o mapa do mundo e disse:
“Só depois que montar esse quebra-cabeça, a gente lê o livro.”
Pouco tempo depois, o menino voltou com tudo pronto.
Surpreso, o pai perguntou:
“Como conseguiu tão rápido?”
E o menino respondeu:
“Foi fácil. No verso havia o rosto de um homem.
Eu só consertei o homem, e o mundo ficou inteiro.”
Essa é a lição.
O mundo não se conserta sozinho.
Ele muda quando usamos nosso conhecimento para cuidar e educar as pessoas no nosso cotidiano.
Doutor, o que o mundo precisa é de profissionais que eduquem com linguagem técnica e ética profissional, não da sua língua grande e capacitista.





