Entre Pipocas e Palavras

No caso do meu Mateus, não bastou colocar o óleo, o grão e ligar o fogo. Foi preciso incrementar mais ingredientes. Essa receita é delicada e pede destreza e atenção. A panela, a quantidade de óleo, o vigor da chama e o sal precisam estar na medida certa para que o milho não queime nem fique sem sabor

Há dias em que observo o desenvolvimento do Mateus (Síndrome de Down) e penso no “grão de pipoca”.
Sim, aquele grão pequeno, duro e aparentemente igual a todos os outros dentro de um saquinho transparente.

Quando penso na pipoca, primeiro me vem à mente o desejo, o desejo de fazer, de saborear, de partilhar. Assim também é o desejo da parentalidade: começamos cheios de vontade, imaginando que todos os grãos do saquinho vão estourar do mesmo jeito, no mesmo tempo, com o mesmo som.

Mas à medida que o fogo da vida se acende e o ritmo da rotina começa, percebemos que cada filho é um grão único,  com seu próprio tempo, sua temperatura, seu jeito de estourar.


No caso do meu Mateus, não bastou colocar o óleo, o grão e ligar o fogo. Foi preciso incrementar mais ingredientes. Essa receita é delicada e pede destreza e atenção. A panela, a quantidade de óleo, o vigor da chama e o sal precisam estar na medida certa para que o milho não queime nem fique sem sabor.

O segredo da melhor receita (seja de uma pipoca deliciosa ou da estimulação de um filho) começa em dosar a dedicação, o amor e o conhecimento. Mas o principal ingrediente é acreditar na qualidade do grão.

Quando acreditamos em nosso filho, aprendemos o tempo certo das estratégias, reconhecemos cada pequeno “estouro” e saboreamos suas conquistas.
Cada explosão de comunicação e fala do Mateus desperta em mim ainda mais sede de conhecimento.
Acordo todos os dias aguardando que minha chama aqueça na medida exata do Mateus. Às vezes, o estouro vem em forma de novas palavras, frases e brincadeiras. E quando sobra um piruá na panela, eu respiro, reviso as estratégias e recomeço adicionando ou retirando ingredientes, mas sempre com doses de ciência e esperança.

Porque o desenvolvimento de um filho é como uma pipoca bem-feita: quando sabemos escolher, dosar e esperar, o resultado explode em vida, sabor e encantamento, e acima de tudo, dentro da gente.

E você, já refletiu sobre quais “ingredientes” do seu dia a dia favorecem o desenvolvimento do seu filho? 

Será que você tem encontrado o ponto certo entre paciência, estratégias de estimulação e o tempo de espera?