A carência humana e a necessidade de amar: por que precisamos tanto de alguém?

Confira a coluna Psicologia para o Dia a Dia, por Renato Mota

O ser humano é, por natureza, um ser relacional. Desde o nascimento, precisamos do outro não apenas para sobreviver, mas também para construir nossa identidade, desenvolver segurança emocional e encontrar sentido na própria existência. A necessidade de amar e ser amado não representa fraqueza ou dependência, mas uma característica fundamental da experiência humana. Entretanto, quando a presença do outro se torna uma condição indispensável para nos sentirmos completos, essa necessidade pode revelar carências emocionais mais profundas.

A Teoria do Apego, desenvolvida pelo psiquiatra e psicanalista John Bowlby, ajuda a compreender esse fenômeno. Segundo essa perspectiva, os primeiros vínculos afetivos estabelecidos na infância influenciam a maneira como nos relacionamos na vida adulta. Experiências de acolhimento, disponibilidade emocional e segurança favorecem a construção de vínculos mais saudáveis. Por outro lado, relações marcadas pela instabilidade, rejeição ou ausência afetiva podem contribuir para o desenvolvimento de padrões de apego ansioso, nos quais o indivíduo demonstra maior medo de abandono e necessidade constante de validação.

Na vida adulta, essa dinâmica pode aparecer na dificuldade de ficar sozinho, no medo excessivo de perder alguém, na busca incessante por aprovação e até na permanência em relacionamentos que provocam sofrimento. Muitas vezes, a pessoa não está necessariamente apaixonada pelo outro, mas emocionalmente vinculada à sensação de pertencimento, proteção ou reconhecimento que aquela relação proporciona. O amor, nesse contexto, pode ser confundido com necessidade, e a ausência do parceiro passa a ser vivenciada como uma ameaça à própria estabilidade emocional.


O psicólogo Abraham Maslow, por meio de sua teoria da Hierarquia das Necessidades Humanas, também contribuiu para essa compreensão ao colocar o amor e o pertencimento entre as necessidades psicológicas fundamentais. Precisamos estabelecer conexões, compartilhar experiências e sentir que fazemos parte da vida de alguém. Contudo, existe uma diferença importante entre desejar uma relação afetiva e depender dela para reconhecer o próprio valor. O vínculo saudável nasce do encontro entre duas individualidades, não da tentativa de preencher, no outro, tudo aquilo que ainda não conseguimos construir dentro de nós.

Talvez um dos maiores desafios emocionais da vida seja aprender a amar sem transformar o amor em uma necessidade desesperada de reconhecimento. Precisamos uns dos outros, e isso faz parte da nossa humanidade. Mas também precisamos desenvolver uma relação suficientemente segura conosco, capaz de sustentar nossa identidade mesmo quando alguém vai embora. Afinal, amar alguém é encontrar companhia para compartilhar a vida; não deveria significar entregar a essa pessoa a responsabilidade de nos fazer sentir que somos alguém.