Abra o seu armário e olhe para ele por alguns segundos.
Não procure a peça mais bonita, a mais cara ou aquela que você mais usa. Olhe para o conjunto.
Talvez você encontre roupas de uma mulher que já não existe mais. Peças de uma fase diferente da sua vida, de um corpo diferente, de uma rotina diferente e, muitas vezes, de uma versão de você que ficou para trás.
E ainda assim elas continuam ali.
Nosso armário conta histórias. E algumas delas dizem muito mais sobre a forma como nos enxergamos do que sobre a maneira como nos vestimos.
Tem a calça guardada para “quando eu emagrecer”.
O vestido lindo esperando uma ocasião especial que nunca chega.
A roupa que você ama, mas acha que “não tem mais idade para usar”.
As peças que não servem há anos, mas que você não consegue doar porque, de alguma forma, abrir mão delas parece aceitar que aquela versão do seu corpo não vai voltar.
Também existem aquelas compradas para uma vida que você nem leva.

O salto altíssimo de quem passa o dia correndo. A roupa sofisticada de quem quase nunca tem uma ocasião para usá-la. A tendência comprada por influência, mas que nunca parece realmente sua quando você coloca no corpo.
Por isso, organizar um armário não deveria ser apenas separar o que fica e o que vai embora.
É um exercício de autoconhecimento.
Uma das perguntas que mais gosto quando falamos de imagem pessoal é: essas roupas representam a mulher que você é hoje?
Não a mulher que você foi aos 20.
Não a mulher que você pretende ser quando perder cinco quilos.
Não a mulher que você acha que deveria ser.
Você. Hoje.
Porque existe uma crueldade silenciosa em abrir o armário todos os dias e encontrar dezenas de roupas que servem apenas para lembrar que o seu corpo mudou.
Seu corpo não precisa voltar a caber nas suas roupas. Suas roupas precisam vestir o corpo que você tem agora.
E isso não significa desistir de objetivos, abandonar cuidados ou deixar de querer mudanças. Significa entender que você merece se sentir bonita durante o processo também.
Outra coisa que o armário revela é o espaço que nos permitimos ocupar.
Às vezes, depois da maternidade, de uma mudança profissional, de um relacionamento ou simplesmente da correria da vida adulta, a mulher vai desaparecendo aos poucos das próprias escolhas.
Ela compra para os filhos. Resolve as necessidades da casa. Cuida do marido. Trabalha. Cumpre horários. Organiza a vida de todo mundo.
E quando chega a vez dela, qualquer coisa serve.
Até o armário começar a refletir isso.
Não existem mais roupas que despertam entusiasmo. Tudo é funcional. Tudo é para “quebrar um galho”. E aquela mulher que um dia gostava de se produzir começa a dizer que perdeu a vaidade.
Talvez ela não tenha perdido.
Talvez só tenha passado tempo demais se colocando por último.
É por isso que eu acredito que imagem pessoal nunca foi apenas sobre roupa.
Quando você escolhe uma peça que veste bem o seu corpo de hoje, quando se permite usar algo bonito sem precisar de uma ocasião especial, quando deixa de guardar roupas como punição ou promessa, existe uma mensagem sendo enviada para você mesma:
eu também sou importante agora.
Seu armário não precisa ser perfeito, enorme ou cheio de tendências.
Ele precisa fazer sentido para a sua vida.
Precisa vestir o seu corpo, acompanhar a sua rotina e, principalmente, reconhecer a mulher que você se tornou.
Então talvez esteja na hora de abrir as portas do seu armário novamente.
Mas, dessa vez, em vez de perguntar apenas “o que eu ainda uso?”, experimente perguntar:
quem é a mulher que essas roupas estão vestindo?
E depois faça uma pergunta ainda mais importante:
ela ainda sou eu?
Porque vestir-se de si também é ter coragem de deixar algumas versões nossas irem embora para finalmente abrir espaço para quem somos agora.





