Onde estavam as mães atípicas ?

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Nenhuma mãe começa do zero.

Eu também não comecei.

Só que, quando me tornei mãe de uma pessoa com deficiência, percebi que havia uma espécie de falha nessa genealogia. Eu conseguia olhar para trás e encontrar referências de maternidade. Minha mãe. Minhas avós. Outras mulheres da família. Mas, quando procurava mulheres que tivessem criado filhos com deficiência, parecia faltar gente naquela fotografia.


Onde estavam essas mães quando eu era criança?

Seus filhos existiam.

Pessoas com síndrome de Down existiam. Pessoas com deficiência intelectual existiam. Crianças com autismo existiam, mesmo quando muitas sequer recebiam esse diagnóstico.

Mas nós quase não as víamos.

Por muito tempo, pessoas com deficiência permaneceram afastadas da vida comum: algumas institucionalizadas, outras fora da escola, muitas protegidas dentro de casa de um mundo que também sabia ser cruel. Em algumas famílias, havia vergonha. Em outras, medo. Em muitas, simplesmente não existiam caminhos.

E, quando os filhos desaparecem do espaço público, as mães também desaparecem um pouco.

Por isso, sabemos tão pouco sobre elas.

O que uma mãe fazia quando a escola dizia que aquele aluno não tinha condições de aprender?

A quem perguntava sobre o futuro?

Quem lhe dizia que seu filho poderia crescer?

Às vezes, tenho a impressão de que imaginamos essas mulheres apenas tristes, resignadas, silenciosas, quase personagens em preto e branco de uma época difícil. Talvez algumas tenham sido. Outras provavelmente foram engraçadas, impacientes, apaixonadas, irritadas, criativas, cansadas, felizes.

Provavelmente foram tudo isso em dias diferentes.

Como nós.

O que talvez as diferencie de nós é que tiveram menos espaço para contar.

E isso importa porque, quando uma mulher se torna mãe de uma criança com deficiência, ela não precisa apenas aprender a cuidar daquele filho. Precisa também imaginar um futuro.

E como imaginar aquilo que nunca vimos?

Quando não conhecemos adultos com deficiência vivendo vidas diferentes, o futuro parece um lugar sem imagens.

Por isso, não me canso de falar, de explicar, de provocar conversas e de educar as pessoas. Faço isso porque sei que o futuro dele não será construído apenas por ele dependerá também do quanto a sociedade estará preparada para reconhecê-lo, ouvi-lo, incluí-lo.

Talvez eu não viva o suficiente para assistir a todo esse futuro.

Mas quero ajudar a construí-lo agora.

Quero deixar caminhos onde antes havia silêncio, referências onde antes havia ausência e possibilidades onde tantas mães encontraram apenas medo.