Tem dias que eu quero férias.
Não é drama. É um dado. Todo mundo fala sobre o amor incondicional, sobre a força, sobre a resiliência. E eu tenho tudo isso. Mas há uma parte dessa história que quase ninguém nomeia: tem dias que você não quer fazer. Não porque não ama. Mas porque o cuidado de alta demanda, exercido quase sempre por uma pessoa só, tem um custo real sobre o corpo e sobre a mente.
E esse custo se acumula. A energia que eu tinha antes para adaptar, para treinar, para insistir, para recomeçar, ela não é infinita. E ninguém avisou que ela iria diminuir enquanto as demandas iam aumentando. Porque o tempo não para. Ele cresce. E com o crescimento vem uma mistura que nenhum manual descreve direito: a adolescência chegou, as espinhas chegaram, as questões típicas dessa fase chegaram. Mas junto vieram comportamentos ainda muito infantis, uma dependência que não se desliga, uma alfabetização incompleta dentro de um corpo que já não é mais de criança.
Você tenta caminhar no tempo dele. Mas o tempo dele e o tempo do mundo não são o mesmo. E você está no meio dos dois, tentando traduzir um para o outro, sem rede de apoio suficiente, sem uma estrutura que te preparou para construir essa autonomia com ele. Então, após dezesseis anos, chegam os dias em que eu sinto que preciso de férias. Não é abandono. Não é rejeição. Não tem nada a ver com o quanto eu amo meu filho. É cansaço. Cansaço legítimo, acumulado, real. E junto com ele vem a culpa. Como se querer descansar fosse incompatível com ser uma boa mãe. Como se a boa mãe precisasse estar sempre disponível, sempre exposta, sempre pronta, sem jamais admitir que também tem um limite.
Amar muito e estar muito cansada não se excluem. Existem na mesma proporção, dentro da mesma pessoa, dentro da maternidade atípica. E essa é uma conversa que precisamos ter. Mesmo que seja difícil. Mesmo que nos deixe vulneráveis. Porque nomear esse cansaço não nos torna mães piores. Nos torna mais honestas sobre o que é, de verdade, cuidar de um filho exaustivamente, para quem sabe, não ter que cuidar dele a vida toda.
Posso tirar férias do meu filho?
Confira a coluna Toda mãe é cientista desta semana, por Cylene Medrado





