Quero nesta semana que inicia a Copa do Mundo escrever uma coluna inspirado numa reflexão sobre o futebol entre memória, identidade, globalização e mercantilização.
Houve um tempo em que a Copa do Mundo cabia na rua. Cabia no rádio de pilha, na televisão da sala cheia de gente, na bandeira improvisada na janela e no coração de quem sonhava junto.
Hoje, a Copa continua sendo um espetáculo capaz de parar o planeta. Mas, entre um drible e outro, é impossível não perceber que o futebol também foi colocado na prateleira do capitalismo e da política.
Talvez esteja aí uma das razões para o crescente desinteresse de muitos brasileiros pela Copa do Mundo.
Não porque o futebol tenha perdido sua beleza, mas porque parte da sua alma parece ter sido capturada pelo mercado e pela política.
O torcedor, que antes se reconhecia na camisa, no clube e na seleção, muitas vezes se sente apenas um consumidor diante de um espetáculo global.
Os jogadores mudam rapidamente de país, de clube e de patrocinador.
As transmissões são cercadas por publicidade. Os interesses econômicos ocupam espaços que antes pertenciam à paixão popular.
A Copa continua mobilizando multidões, mas já não provoca a mesma unanimidade de outras épocas.
O encanto que unia ruas enfeitadas, famílias reunidas e vizinhos comemorando juntos parece disputar espaço com a sensação de que o futebol se tornou um produto cuidadosamente embalado para o mercado mundial.
Ainda assim, algo resiste. Quando a bola rola, a emoção reaparece. O gol continua capaz de interromper preocupações, aproximar desconhecidos e reacender memórias.
O desafio do futebol contemporâneo talvez seja justamente este: não permitir que a lógica do lucro apague a capacidade que o jogo possui de criar pertencimento, identidade e sonho.
Porque o futebol pode estar na prateleira do capitalismo, mas sua verdadeira grandeza continua morando no coração das pessoas.
Os craques transformaram-se em marcas globais.
Os clubes viraram empresas bilionárias.
As camisas mudam a cada temporada para alimentar o consumo.
Os estádios, antes templos populares, muitas vezes parecem vitrines para quem pode pagar mais caro.
A Copa do Mundo, que nasceu como encontro entre povos e culturas, tornou-se também um dos maiores produtos do planeta.
Cada chute movimenta mercados. Cada gol gera contratos. Cada imagem vale milhões.
Mas existe algo que o mercado ainda não conseguiu comprar: A emoção.
Ela continua viva quando uma criança pinta o rosto com as cores da seleção.
Quando uma família se reúne diante da televisão.
Quando um povo inteiro compartilha lágrimas de derrota ou gritos de vitória.
Talvez seja justamente essa contradição que faça do futebol um fenômeno tão fascinante.
Ele é mercadoria e sentimento. Negócio e paixão. Produto global e memória afetiva.

A Copa do Mundo está na prateleira do capitalismo e da política, é verdade.
Mas, felizmente, ainda não conseguiram colocar a esperança em uma etiqueta de preço.
E enquanto houver alguém vibrando com um gol como se fosse um milagre, o futebol continuará escapando das vitrines para reencontrar sua essência: a capacidade de unir pessoas, mesmo que por noventa minutos, em torno de um mesmo sonho.





