Posição Ginecológica

Confira a Coluna Toda Mãe é Cientista desta semana por Cylene Medrado
Foto: Cylene Medrado/Arquivo Pessoal
Foto: Cylene Medrado/Arquivo Pessoal

Cresci numa casa onde meu pai, machista à moda antiga, calava a voz da minha mãe sem perceber o estrago que fazia. Mas, curiosamente, quando se tornou pai de três meninas, virou quase o oposto do que havia sido com ela.

De repente, queria que fôssemos independentes, fortes, autônomas. Queria que aprendêssemos a dirigir cedo, a atirar, a lutar karatê, como se estivesse nos treinando para sobreviver ao mundo que ele temia.

E havia também o pavor dele da presença dos rapazes.


Meu pai não gostava da ideia de meninos nos levando de carro. Um dia perguntamos por quê. Ele respondeu, com a maior naturalidade, uma das coisas mais absurdas que já ouvi.

“Carro tem posição ginecológica. E, quando vocês transarem, nunca mais vão querer parar… porque é bom demais.”

Trinta anos depois, ainda não sei se ele era moderno, realista ou apenas um homem tentando traduzir a vida como entendia.

Mas hoje eu vejo que, por trás da frase exagerada, havia uma mensagem. Uma verdade. Um medo profundo de que a vida, o amor, o casamento e a maternidade roubassem de nós a liberdade de ser quem éramos.

Por isso ele nos deu um carro cedo.
Por isso insistiu tanto que seguíssemos nosso próprio caminho.
Por isso lutou, à maneira dele, para que fôssemos mulheres que não se deixassem calar.

Papai tinha visto de perto, e também ajudado a provocar, o silenciamento da minha mãe. Ele sabia como o casamento, a rotina e a maternidade podem consumir uma mulher aos poucos, apagando bordas, desejos, opiniões e sonhos.

Ele não leu sobre isso.
Ele viveu isso.
Ele participou disso.

E, talvez, por ter percebido tarde demais, quando se viu pai de três meninas decidiu apontar para nós um caminho diferente.

Ele sabia que filhos mudam tudo.

Sabia que a maternidade vira a mesa, reorganiza a vida, provoca uma revolução e que, nessa revolução, as mulheres são as que mais renunciam.

Sempre foram. Ainda são.

Então ele fez o que achou que podia fazer. Nos empurrou para a independência.

Talvez por isso a maternidade nunca tenha sido exatamente um sonho antigo meu. Eu pensava na ideia, claro, mas tinha sido tia cedo demais, e isso me deu uma espécie de prévia do caos.

Aos vinte anos, assisti de camarote aos perrengues da minha irmã. Noites recortadas, choros intermináveis, cólicas, brinquedos espalhados pela casa e uma fadiga que parecia morar nos olhos.

Mas eu era a tia das férias da faculdade. Aquela que chega com energia, diverte, abraça, tira fotos, faz bagunça e devolve a criança quando suja, quando cansa, quando chora.

Era maravilhoso. Justamente porque tinha hora para acabar.

Mas quando o filho é seu, nada acaba. Tudo começa.

A transformação começa pelo corpo. Os enjoos cruéis, os peitos latejantes, a boca que incha, a cintura que desaparece, a barriga que cresce além da imaginação.

Na verdade, todas as mulheres que optam por ter filhos, sendo mães biológicas ou adotivas, vivem mutações reais, profundas e irreversíveis.

Sabemos que a maternidade pode ser amor, mas também pode ser exaustão. Pode ser potência, mas também pode ser invisibilidade.

E, talvez, seja por isso que, neste Dia da Mulher eu volte a pensar no meu pai.

Aquele homem contraditório, cheio de frases estranhas e conselhos diferentes para a época, do jeito dele, tentou preparar três meninas para não desaparecerem dentro da própria vida.

Talvez ele não soubesse explicar tudo, mas sabia de uma coisa essencial: Que o mundo ainda tenta calar as mulheres. E que, se dependesse dele, as filhas não seriam silenciadas.