O voo secreto dos meus sonhos

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Foi um voo silencioso, desses que começam quase invisíveis, como quem risca o céu com asas de esperança.

Tenho escrito páginas que um dia nem ousei imaginar que escreveria.

E, olhando para trás, percebo: esse voo começou muito antes da primeira linha publicada.


Começou quando descobri, no caminho, que eu também tinha asas com PENAS fortes.

Primeiro vieram os versos, tímidos, mas sinceros.

Depois os poemas, as histórias, os contos e as crônicas.

A palavra foi me encontrando enquanto eu a buscava.

Vieram os livros.
Vieram as colunas.

Escrevo para a WebTerra, para o jornal O Tempo, e para tantos outros espaços que a vida foi abrindo diante de mim.

E a cada publicação, não era apenas texto que ganhava o mundo, era um pedaço daquele menino que olhava o céu como quem procura um sinal.

Eu venho de um chão onde o horizonte é largo e infinito.

Venho de Salinas, do cerrado, das veredas, das conversas ao entardecer.

Foi ali que meus sonhos criaram asas. Não asas apressadas, mas persistentes.

Sonhos que aprenderam a esperar a chuva, a respeitar o tempo da semente, a entender que nem todo voo é fuga, às vezes é travessia.

Durante muito tempo, carreguei meus sonhos dobrados no bolso.

Eram secretos não por medo, mas por cuidado.

Sonho exposto demais quebra.

Sonho amadurecido floresce.

Escrever sempre foi um desses voos.

Meus sonhos voaram comigo quando escolhi educar meus filhos com livros antes de heranças.

Voaram quando transformei memórias e histórias em páginas e virei poeta e escritor ao mesmo tempo, abrindo caminhos para mim e para outros.

Voaram ainda menino, na roça, quando o vento cortava os milharais secos como se afinasse um violino para o mundo.

Voaram no canto dos pássaros pousados às margens do rio.

No barulho das pequenas cachoeiras, no correr das águas ensinando que quem segue seu curso sempre encontra o mar.

Há voos que são altos.
Outros são profundos.

Os meus aprenderam a ser os dois.

Descobri que escrever não era apenas um ofício, era destino em movimento.

Hoje entendo: o voo secreto não é o que se esconde.

É o que se constrói por dentro antes de ganhar o mundo.

Ele começa na coragem silenciosa de continuar.

Na disciplina de acordar cedo.

Na fé de escrever mesmo quando ninguém está lendo.

E quando finalmente ganha altitude, não é surpresa, é colheita.

A gente é sempre maior do que os próprios sonhos.

E às vezes só descobre isso quando começa a escrever o que nunca imaginou ser capaz de escrever.

Talvez todos nós tenhamos um voo secreto.

Porque sonho que se move cria asas.

E asa que insiste em bater, um dia, vira realização.