Travessia que realizamos juntos

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Fui inspirado em Guimarães Rosa.
Não para imitá-lo, porque Rosa não se imita.

Ele me ensinou que o sertão não é geografia: é estado de espírito, é pergunta sem resposta pronta, é travessia que nunca termina.

Em Grande Sertão: veredas, aprendi que o caminho verdadeiro é torto, que o bem e o mal moram misturados, e que a palavra precisa ter coragem para dizer o indizível.


Que vereda é água escondida, é pausa no meio da secura, é sentido brotando onde ninguém espera.

Com Mia Couto, aprendi outra lição essencial: que a terra fala, que a paisagem guarda memória, e que a palavra, quando nasce do chão, também pode curar feridas invisíveis. Mia me ensinou que não se escreve sobre a terra, escreve-se com ela.

Em Sal da terra: cerrados, sigo tentando honrar essas heranças, escrevendo com o pé fincado neste universo, com os olhos atentos aos sinais da terra e com a escuta voltada para quem vive, resiste e permanece.

Se Rosa atravessou o sertão para entender o homem, e Mia escutou a terra para não perder a alma, eu caminho o Cerrado para entender a vida.

Porque quem escreve a partir da terra,
não escreve sozinho. Escreve acompanhado dos que vieram antes, dos que ficaram, e dos que ainda virão.

E no fundo, como eles ensinaram: o sertão, a savana, e o Cerrado, é dentro da gente.

Guimarães Rosa me ensinou a atravessar o sertão por dentro. Mia Couto me ensinou a escutar a terra como quem escuta um ancião.

Em Sal da terra: cerrados, escrevo tentando honrar esses aprendizados: com o pé no chão, a palavra enraizada, e a alma funda como vereda.

Grande Sertão: veredas e Sal da terra: cerrados dialogam como dois rios que nascem em tempos distintos, mas bebem da mesma nascente profunda: a terra como escola da alma.

E nessa confluência também corre Mia Couto, africano de palavras-rio, que nos ensinou que a paisagem pensa, que a língua tem raiz e que o chão guarda memória.

Desde o título, o paralelo já se anuncia.
Em Grande Sertão: veredas, o sertão é vastidão e enigma; as veredas, fendas de água e sentido no meio da aridez. São caminhos estreitos onde a vida insiste, onde o homem se encontra consigo mesmo.

Em Sal da terra: cerrados, o título carrega matéria e missão: o sal que preserva, dá sabor e impede a corrupção; a terra que sustenta, dói, ensina; o Cerrado como corpo vivo, ferido e sagrado ao mesmo tempo.

Se em Rosa o sertão é travessia metafísica, aqui o Cerrado é permanência em luta, permanecer também é atravessar.

E em Mia Couto, a terra é verbo: fala, sonha, lembra. Não é chão mudo, é um corpo ancestral que narra o mundo por dentro.

Nos três, o território não é cenário: é personagem.

Riobaldo não caminha sobre o sertão; ele é moldado por ele. Aprende que o bem e o mal não moram em extremos claros, mas se misturam como água barrenta de vereda.

Em Sal da terra: cerrados, o homem também não domina a paisagem: aprende a ler seus sinais, seus ciclos, seus silêncios.

Cerrado ensina com secas, esperas, brotações repentinas. Não há pressa, há tempo.

Mia Couto, por sua vez, nos lembra que a paisagem também nos escreve, que somos feitos das palavras da terra onde pisamos.
Ambos partem da oralidade e da memória.

Rosa constrói um sertão falado, rezado, duvidado. Cada frase é curva de rio, cheia de espanto e ambiguidade.

Sal da terra: cerrados fala a partir do chão, da vivência, do saber que não veio dos livros, mas da lida, da observação, da escuta do vento e da terra rachada. É uma escrita que não explica: testemunha.

Mia Couto costura a língua com poesia e ancestralidade, ensinando que a palavra não descreve a vida — ela a reinventa para que sobreviva.

O conflito central é semelhante: como seguir sendo humano num mundo duro?

Riobaldo questiona Deus, o diabo, o destino, o amor e a coragem. Sua grande guerra é interior.

No Cerrado de Sal da terra, a guerra é silenciosa e cotidiana: contra o esquecimento, contra a expulsão, contra o apagamento dos modos de vida. Mas também aqui a luta maior é ética e espiritual: permanecer sem perder a essência.

Em Mia Couto, a batalha é contra o esquecimento da alma, contra a pobreza de sentido, contra a morte da imaginação que sustenta os povos.

Se Grande Sertão: veredas pergunta se o diabo existe? Sal da terra: cerrados pergunta se ainda existe escuta, cuidado, compromisso com o que sustenta a vida?

E Mia Couto pergunta se ainda sabemos sonhar com os pés no chão?

Um interroga o mal.
Outro, a indiferença.
O terceiro, o esquecimento.

No fundo, os três dizem a mesma coisa com vozes distintas: o sertão, seja de veredas, de cerrados ou de savanas africanas, não é atraso.
É profundidade.

É lugar onde a vida se revela sem maquiagem.
Onde atravessar é aprender.
Onde ficar é resistir.
Onde contar histórias é um ato de sobrevivência.

E talvez a maior lição comum seja esta:
quem entende a terra, entende o mundo.

Porque ali, onde o chão é duro,
a alma precisa ser funda.