Quando eu escrevo sobre Guimarães Rosa não é repetir seus passos, nem fazer a mesma travessia.
É caminhar ao lado, escutando o silêncio da terra, deixando que ela fale por si, do meu jeito, no meu tempo.
Eu sigo essa conversa sem imitá-lo, afirmando minha própria voz: olhando para os Gerais, como disse Haroldo Santiago, para esse chão que parece seco mas guarda mundos inteiros sob a superfície.
Guimarães Rosa disse, com a precisão de quem conhecia a alma da terra: Minas são muitas.
Eu arrisco dizer mais: Os Gerais, são muitas minas.

Os Gerais entram na minha escrita como quem pede licença para deixar alguns versos da diversidade: Cada árvore torta é como gente.
Cada raiz funda é memória.
Cada flor que insiste,
é um sim dito em silêncio à vida.
Não apenas pelas veredas, pelas falas, pelos modos de existir, mas porque, debaixo do chão que parece seco, há um mundo inteiro em estado de nascimento.
O Cerrado é uma coleção de minerais e de mistérios.
É biotita, escura e discreta, guardando o calor do tempo.
É hornblenda, resistente, sustentando silenciosamente a estrutura do que permanece.
É quartzo, transparente e duro, cristalizando a paciência dos séculos.
É feldspato, abundante, fazendo da simplicidade a base de tudo.
E é turmalina, colorida e rara, lembrando que até na terra áspera nasce beleza inesperada.
Os Gerais são isso:
uma geologia que também é ética,
uma mineralogia que também é memória,
uma paisagem que não se entrega à primeira leitura.
Quem anda por essas terras pisa sobre histórias compactadas,
sobre vidas sedimentadas,
sobre tempos que não se medem em calendário, mas em camadas.
Assim como Minas, o Cerrado ou os Gerais não cabem numa só definição.
Ele é múltiplo, profundo, contraditório.
E só revela seus cristais a quem aceita escavar com respeito,
escutar com calma
e entender que nem tudo o que é valioso brilha na superfície.
talvez seja isso que Guimarães Rosa já sabia:
que Minas não é um lugar, é uma condição da alma.
O Cerrado, os Gerais, são assim também.
Terra que fala baixo,
que ensina devagar,
que só entrega seus cristais
a quem aceita caminhar com humildade
e cavar com cuidado.
E cada um escolhe se passa por cima
ou se aprende a escutar o que a terra, paciente, vem dizendo há milênios.
Toda vastidão dos Gerais mora em mim.
Em mim cabem caminhos que ainda não pisei, veredas que aguardam coragem,
sementes adormecidas no escuro do tempo.
O Cerrado me ensinou que o infinito não grita, ele insiste, em silêncio.
Assim também somos nós:
territórios de possibilidades incontáveis,
onde cada escolha pode virar rio,
cada espera pode florescer,
e todo limite aparente é apenas a superfície de um mundo inteiro pedindo travessia.

Como disse Adenilde Santiago: Minas nunca coube num só nome.





