Você também chora no chuveiro?

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Amiga,
Vamos começar pelo óbvio que ninguém fala alto: que mãe atípica nunca chorou no chuveiro?
Não é drama. É o único lugar em que a gente consegue ficar sozinha, onde a água desce junto com as lágrimas, ninguém pergunta nada e a cabeça finalmente consegue pensar. A gente chora ali não porque é fraca, mas porque o resto do dia foi forte demais.

E a razão do choro nem sempre é tristeza, mas excesso de demandas. Excesso de decisão, de informação, de responsabilidade jogada no colo sem explicação.

Um dia desses, no meio do meu chororô pós-banho, peguei o telefone ainda com a toalha enrolada na cabeça e a internet me entregou um post sobre “mães empoderadas”. A foto era de uma mulher maquiada, segura, com os filhos ao redor sorrindo. O texto contava que, depois do divórcio, ela precisou reorganizar a vida, tomar decisões difíceis, sustentar escolhas importantes e seguir em frente.


Nada disso é pequeno. Pelo contrário. Em vários momentos daquela história, ela provavelmente esteve, sim, empoderada: teve clareza, tomou decisões possíveis, fez escolhas duras com os recursos que tinha naquele momento. Isso tem valor e precisa ser reconhecido.

O equívoco começa quando essa experiência vira rótulo permanente. Empoderamento é uma palavra da moda, mas esse é um tema discutido há muitos anos na pesquisa científica e, portanto, é um conceito aplicável. Não é traço pessoal nem estado emocional. A mídia fala como se empowerment fosse um estado fixo, um lugar onde se chega e nunca mais se sai. Como se, por ter conseguido decidir em um contexto específico, aquela mulher estivesse empoderada para sempre, independentemente das mudanças, das novas demandas, da falta ou da presença de apoio.

Empowerment não funciona assim. Ele não é uma medalha. Ele é resultado. Resultado de um processo que vem antes. Esse processo se chama enabling.

Enabling é o que acontece quando alguém organiza a informação, explica o que importa, ajuda a interpretar o que está sendo observado e mostra como usar esse conhecimento no dia a dia. É o processo que constrói entendimento.
Empowerment é o resultado desse processo: a capacidade de fazer escolhas e sustentar decisões no cotidiano com base no que foi compreendido.

Por isso, em alguns momentos da vida, aquela mulher do post pode ter estado empoderada. Em outros, pode ter estado exausta, sobrecarregada, precisando de suporte, como qualquer mãe. Empoderamento oscila porque os apoios e as demandas também oscilam.

E agora deixa perguntar para você, mãe atípica: em quais momentos da sua vida você se sente, de fato, capaz de decidir com clareza o futuro do seu filho?
E em quais momentos você está apenas sobrevivendo, resolvendo no improviso, sem enabling suficiente para sustentar as decisões que precisa tomar ?
Essa diferença importa.

Quando profissionais ignoram o enabling no processo de acompanhamento e intervenção às famílias de crianças com deficiência e acham que dicas e soluções prontas promovem empowerment direto, isso não é empoderar. É largar a mãe no meio do caminho. A gente até decide. Decide todo dia. Mas decide cansada, confusa, no escuro. E vamos parar de fingir que isso não acontece. Acontece muito. Existe um exército de profissionais que adoram falar em empoderamento das famílias enquanto mantêm as mães completamente dependentes de conhecimento. Gente que chama de orientação o despejo de tarefas a cumprir. Chama de parceria um discurso sem escuta, sem divisão de responsabilidade e sem apoio quando a criança não evolui.

Sem processo (enabling), não existe resultado (empowerment).

Então, se você anda chorando no chuveiro porque fica perdida sem saber o que fazer, deixa eu te dizer uma coisa: ou você muda os profissionais que apoiam sua família ou você pode chorar à vontade. Chora mesmo.
Agora, se sair do banho com o olho vermelho e o seu filho perguntar se você chorou, responde: “não, filho, caiu sabão no meu olho”.

Gostou da dica? Resposta seguramente recomendada e com evidência empírica testada aqui em casa.

Beijo grande, de uma mãe que já anotou tudo, já seguiu tudo, já se culpou à toa e hoje não confunde profissionalismo com enrolação.