Pessoal, urgente: nos vales, a vida não espera

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

APRENDI NAS MINHAS TRAVESSIAS COM JANONES, MARINA SENNA E TANTOS OUTROS QUE O CARGO MAIS IMPORTANTE DE UM PAÍS É SER CIDADÃO.

Os governos passam, os mandatos terminam, os cargos mudam de mãos. Mas a cidadania permanece como fundamento da democracia.

Ser cidadão é ter direitos, cumprir deveres e participar das decisões. Antes de ser presidente, ministro, governador ou prefeito, é preciso ser cidadão.


Aqui nos Vales do Jequi, Alto Rio Pardo, Norte de Minas e em todo o Nordeste, tudo é urgente. A chuva, a fome, a saúde e a dignidade não podem esperar.

Estamos na região da SUDENE, criada em 1959 para enfrentar desigualdades históricas e promover o desenvolvimento econômico e social do Nordeste e de áreas semiáridas vizinhas.

É urgente a água que não chega. O emprego que não aparece. O medicamento que falta. A escola que precisa de oportunidades. A aposentadoria que mal sustenta uma família. A juventude que deseja permanecer em sua terra sem precisar partir.

Nessas regiões, tudo é urgente.

Talvez por isso eu tenha parado para pensar na trajetória de André Janones, deputado conhecido por transformar a palavra URGENTE em palavra de ordem.

Quem o vê gritando nas redes talvez desconheça a estrada que percorreu antes de chegar aos corredores do poder.

A história começa com sua mãe, Divina, uma mulher que enfrentou a vida com coragem. André tinha apenas dez meses quando perdeu o pai. Ficou ela, com dois filhos e uma vida inteira para sustentar.
Trabalhou como empregada doméstica. Há mulheres que carregam o mundo sem aparecer nos retratos oficiais. Apenas levantam cedo e seguem, fazendo do próprio corpo a ponte entre a necessidade de hoje e a esperança de amanhã.

O menino cresceu em Ituiutaba. Caminhava seis quilômetros para estudar. Para custear a faculdade de Direito, trabalhou como cobrador de ônibus, acordando de madrugada e enfrentando jornadas que incluíam a fome.

E a fome, quando chega cedo, é uma professora severa. Ensina pelo corpo aquilo que nenhum livro consegue explicar inteiramente.

Talvez seja preciso conhecer essa travessia para compreender o homem que, mais tarde, faria da urgência uma palavra quase permanente.

Compreender, porém, não significa concordar com tudo. A história de ninguém concede salvo-conduto para todas as atitudes. A vida pública exige responsabilidade, coerência e resultados.

Gosto de pensar que a vida se parece com o Cerrado.

Por fora, há quem enxergue apenas a secura, os galhos retorcidos e a terra castigada. Poucos percebem as raízes profundas, a resistência escondida e a capacidade de florescer quando tudo parece anunciar o contrário.

O Cerrado não faz alarde para sobreviver. Mas luta todos os dias.

Talvez as pessoas também carreguem suas estações. Há quem transforme a dor em silêncio, quem a converta em trabalho, quem faça dela poesia e quem levante a voz para mudar o mundo.

Janones escolheu a política. Nesse território, a voz pode abrir caminhos, mas também produzir conflitos. A urgência precisa encontrar responsabilidade; a indignação, diálogo; e a palavra, ação.
Porque não basta gritar que é urgente. É preciso reconhecer aquilo que, de fato, não pode esperar.

No Norte de Minas, conhecemos essa linguagem. Conhecemos a espera pela chuva, as distâncias, a escassez e a capacidade de fazer muito com pouco.
Sabemos que, por trás de cada estatística, existe uma família. Por trás de cada número, uma história. E por trás de cada espera, alguém tentando não perder a esperança.
A origem humilde pode explicar uma caminhada, mas são as escolhas do presente que revelam o compromisso de quem chegou ao poder.

E fica uma pergunta, dessas que a gente leva para casa e deixa repousar junto à janela:
Quantos meninos ainda precisam conhecer a fome para conquistar o direito de sonhar?
Aqui, tudo é urgente.

A chuva, para a terra. O alimento, para quem tem fome. O remédio, para quem luta pela vida. A justiça, para quem espera. A esperança, para quem já esperou demais.

E a dignidade, para todos nós.

Porque uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela em que alguns aprendem a gritar mais alto.
É aquela em que ninguém precisa gritar para ser ouvido.