Outro dia li uma pergunta que ficou comigo: Onde estão as mulheres reais, com defeitos e tudo?
Pensei nas mães. Não naquela mãe que acorda cedo, trabalha, cuida dos filhos, responde à escola, organiza terapias, faz exercício, mantém a casa em ordem, tem um hobby, cuida do casamento e ainda dorme oito horas por noite.
Essa mulher não existe. Se parece que existe, alguma coisa ficou fora da fotografia.
A maioria das mulheres que eu conheço está cansada. Resolve uma coisa enquanto pensa em outras três. Marca consulta, troca e-mail com a escola, pesquisa tratamento, organiza transporte, lembra medicação, acompanha terapia, trabalha quando consegue.
Muitas reduzem a vida profissional. Algumas interrompem completamente. E, sem perceber, passam a viver como rede de apoio da vida de outra pessoa. O problema é que nunca parece suficiente.
Sempre existe mais uma intervenção, mais uma avaliação, mais alguma coisa que poderia estar sendo feita.
É como correr numa esteira.
Você corre muito. Cansa muito. Mas continua no mesmo lugar.
E, no meio disso, a própria vida vai ficando para depois.
O curso que queria fazer.
O trabalho que queria retomar.
O livro.
O hobby.
Uma tarde sem obrigação.
Tudo começa a parecer secundário.
E ainda existe culpa quando alguma coisa é só nossa. Talvez a questão não seja ensinar mães a fazer “autocuidado”. Às vezes, até isso vira mais uma tarefa na agenda.
Talvez seja mais simples: precisamos de espaço para continuar sendo pessoas.
Porque cuidar de alguém não deveria significar abandonar completamente os próprios projetos.
Nossos filhos precisam de apoio.
Mas nós não podemos passar a vida inteira existindo apenas como rede de apoio deles.
Talvez, de vez em quando, seja preciso sair da esteira e perceber há quanto tempo estamos nos perguntando:
Pra onde eu tava indo mesmo?





