Meninos também precisam brincar de casinha

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Imagine entrar numa loja de brinquedos e observar duas prateleiras. De um lado, carrinhos, pistas de corrida, bolas, robôs e super-heróis. Do outro, bonecas, panelinhas, berços, cozinhas e pequenos utensílios domésticos. Parece apenas uma divisão comercial. Mas será que percebemos o que estamos ensinando às crianças antes mesmo de elas começarem a brincar?

Enquanto algumas crianças são incentivadas a correr, construir, competir e explorar movimentos, outras recebem mais oportunidades de representar situações da vida cotidiana: preparar uma refeição, alimentar um bebê, trocar uma roupa, cuidar de alguém que está doente.

Todas essas brincadeiras têm valor. O problema começa quando decidimos, com base no gênero, quais experiências uma criança pode ou não viver.


Na Psicologia do Desenvolvimento, chamamos de brincadeira simbólica a capacidade de representar situações, personagens e acontecimentos que não estão necessariamente presentes. Uma colher pode transformar-se num avião. Uma caixa vira uma casa. Uma boneca sente fome, toma banho, adoece e precisa de cuidados.

Parece simples, mas existe uma enorme complexidade por trás desse faz de conta.

Ao brincar de preparar o jantar, a criança organiza uma sequência de acontecimentos, atribui funções aos objetos, representa ações e experimenta diferentes papéis sociais. Ela encontra oportunidades para usar verbos, estabelecer relações de causa e consequência, antecipar situações e construir pequenas narrativas.

É uma maneira de experimentar a linguagem dentro de um contexto que faz sentido.

E aqui surge uma questão que merece nossa atenção: quantos meninos deixam de experimentar essas situações porque alguém decidiu que cuidar de uma boneca é coisa de menina?

Muitas vezes, oferecemos aos meninos brinquedos que favorecem movimento, velocidade, construção e exploração de objetos. São experiências importantes, naturalmente. Um carrinho também pode participar de uma história complexa, assim como uma boneca pode ser utilizada de maneira repetitiva. O desenvolvimento não depende do brinquedo isoladamente, mas das possibilidades de ação, imaginação e interação que construímos com ele.

Entretanto, quando o repertório de brincadeiras fica restrito, algumas oportunidades de aprendizagem podem tornar-se menos frequentes.

Essa discussão ganha uma dimensão ainda mais importante quando pensamos nas crianças com dificuldades de comunicação social, linguagem e brincadeira simbólica.

Adotar uma intervenção que trabalha atenção compartilhada, brincadeira simbólica, envolvimento social e regulação emocional a partir dos interesses da criança utiliza a brincadeira para ampliar suas possibilidades de interação e comunicação.

Pesquisas com essa abordagem encontraram avanços no envolvimento conjunto entre crianças e cuidadores e na diversidade das brincadeiras. Isso nos ajuda a compreender que brincar não é apenas ocupar o tempo: é também uma oportunidade de aprender a compartilhar experiências e construir significados com outra pessoa.

Mas não precisamos transformar a sala de casa num consultório.

Se seu filho gosta de carrinhos, comece pelos carrinhos. Talvez um deles possa levar alguém ao supermercado. Outro pode transportar uma criança até a escola.

Aos poucos, uma atividade inicialmente centrada no movimento pode ganhar personagens, acontecimentos, problemas e soluções.

Também podemos convidar os meninos a brincar de dar banho numa boneca, vestir um personagem, preparar uma refeição ou cuidar de alguém. São oportunidades para representar o próprio corpo, reconhecer necessidades, compreender rotinas de autocuidado e experimentar situações de convivência.

Há ainda uma contradição curiosa nessa história. Desejamos criar homens responsáveis, participativos, capazes de cuidar dos filhos, da própria saúde e da casa. Entretanto, algumas dessas experiências continuam sendo desencorajadas justamente na infância, quando poderiam ser vividas espontaneamente por meio do brincar.

Depois, quando adultos, esperamos que saibam fazer aquilo que nunca foram incentivados a experimentar.

Talvez seja hora de olhar novamente para aquela prateleira de brinquedos.

Não precisamos tirar os carrinhos dos meninos nem as bonecas das meninas. Precisamos deixar de tratar essas escolhas como fronteiras.

Porque brincar de cuidar não torna um menino menos menino. Amplia suas oportunidades de compreender a si mesmo, aos outros e ao mundo em que vive.

E, convenhamos, aprender a cuidar da própria casa não deveria ser uma habilidade descoberta apenas depois do casamento.