De vó Dinha a Ana Elisa e Flávia: a ancestralidade que atravessa gerações

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Sou o sonho mais sonhado da minha ancestralidade.

Quando imagino meus ancestrais diante do Pelourinho, penso nos homens e nas mulheres negras que conheceram a violência da escravidão, tiveram seus direitos negados e, mesmo assim, encontraram forças para resistir, proteger seus filhos e preservar suas histórias.

Quantas mulheres sonharam com um futuro em que suas filhas e netas pudessem estudar, votar, falar em público e ocupar espaços que lhes foram negados?


Quantas imaginaram que, um dia, mulheres negras poderiam participar das decisões de seu país?

A escravidão foi abolida, mas suas marcas continuam presentes nas desigualdades e no racismo que atravessam a sociedade brasileira. A liberdade conquistada não encerrou a travessia. Apenas abriu novos caminhos.

Quando escuto hoje mulheres negras falando de ancestralidade, liberdade, resistência e representatividade, tenho a sensação de que já ouvi muitas dessas palavras há muito tempo.

Ainda menino, eu as escutava da boca de minha Vó Dinha, embora, naquela época, não compreendesse toda a dimensão do que ela me contava.

O que hoje ganha voz nas tribunas, nos livros e nos espaços de poder já habitava as histórias que minha avó guardava na memória.

Vó Dinha era filha de africanos que vieram para o Brasil. Em sua voz, o passado atravessava gerações e chegava até mim, menino criado entre as histórias da roça e as veredas de Salinas.

Antes de conhecer a ancestralidade nos livros, comecei a senti-la nas palavras de minha avó.

Hoje compreendo que ela não me deixou apenas recordações. Deixou-me uma ligação com uma história que começou muito antes de mim.

Talvez eu seja isso: um sonho antigo que aprendeu a caminhar.

Há travessias que levam séculos para acontecer. Algumas começam no silêncio de uma senzala, diante das argolas de um pelourinho. Outras atravessam a seca, resistem ao esquecimento e chegam ao presente transformadas em palavras, livros, canções e possibilidades.

É nesse Brasil de contradições e possibilidades que a história nos apresenta: Ana Elisa Santos Silva, jovem negra de 21 anos, natural de Divinópolis, cuja trajetória política nos convida a refletir sobre a presença da juventude negra nos espaços de poder.

Do Pelourinho à tribuna parlamentar, há uma distância que não se mede apenas em quilômetros ou séculos. Mede-se pelas vidas que foram silenciadas, pelos direitos conquistados e pelas portas que ainda precisam ser abertas.

A presença de uma jovem negra na política não apaga séculos de sofrimento, nem resolve, por si só, as desigualdades históricas. Mas cada conquista de representatividade pode abrir uma fresta no muro da exclusão.

Não se trata de transformar uma pessoa em símbolo, esquecendo que ela tem ideias, escolhas e responsabilidades próprias.

Trata-se de reconhecer que uma democracia se fortalece quando amplia as possibilidades de participação e transforma representatividade em direitos concretos.

A liberdade não termina quando se abrem as portas de um Parlamento. Ela se completa quando ninguém precisa pedir licença para existir com dignidade.

E essa história não pertence apenas às grandes cidades ou aos salões do poder. Também se escreve nas pequenas comunidades, nas roças, nas estradas de terra e nas veredas do Cerrado.
Eu venho desse chão.

Nasci e cresci entre as histórias da roça, as lembranças da minha gente e a paisagem de Salinas. Aprendi que a vida também se conta pela voz dos mais velhos, pelas memórias guardadas à sombra das árvores e pelos ensinamentos transmitidos de geração em geração.

Quando escrevo sobre Salinas, canto o Cerrado ou transformo lembranças em poesia, não falo apenas de mim. Falo também por aqueles que não tiveram livros, papel ou microfone, mas deixaram suas histórias gravadas na terra e na memória de seus descendentes.

É por isso que, quando ouço as mulheres negras de hoje reivindicando voz, espaço e reconhecimento, volto a Vó Dinha. Percebo que muitas das questões que agora ganham visibilidade já estavam presentes, de alguma forma, nas histórias que ela me contava na infância. O que mudou foi o lugar de onde essas vozes podem falar. E o que ainda precisa mudar é o quanto estamos dispostos a escutá-las.

Minha ancestralidade é feita de muitos caminhos: a resistência negra, a luta dos trabalhadores, a persistência de quem enfrentou a seca e a esperança daqueles que trabalharam para que seus descendentes pudessem ir mais longe.
Sou herdeiro de sonhos que não começaram comigo.

Dos ancestrais no Pelourinho à juventude na Câmara dos Deputados, das histórias de Vó Dinha às veredas do Cerrado, vejo uma travessia que continua. Aos que vieram antes de nós, devemos memória. Aos que caminham conosco, respeito. Aos que ainda virão, devemos a coragem de construir um país em que a cor da pele, a origem social ou o lugar de nascimento não determinem o tamanho dos sonhos de ninguém.

Hoje, quando me sento para escrever, sinto que minha infância também se senta comigo. É como se a voz de Vó Dinha atravessasse o tempo para me lembrar de que nenhuma história começa em nós e nenhuma memória precisa morrer conosco.
A ela dedico estas palavras. Porque, antes de encontrar nos livros a história dos meus ancestrais, comecei a conhecê-la pela voz de minha avó.

Sou o sonho mais sonhado da minha ancestralidade. Um sonho que nasceu antes de mim, atravessou gerações e continua caminhando, na esperança de que outros possam caminhar ainda mais longe.