Uma pessoa começa a chorar. Seu filho olha para ela e ri.
Você sente o rosto esquentar. Tenta interromper o riso, olha para quem está ao redor e imagina o que todos devem estar pensando: “Que menino insensível”. “Que mãe não ensinou educação”.
A vergonha aparece antes mesmo de você conseguir compreender o que aconteceu.
Se você já passou por isso, quero começar por aí: sentir-se constrangida não faz de você uma mãe menos compreensiva. Você sabe que aquele riso pode ferir alguém e teme que o comportamento de seu filho seja interpretado como crueldade. O problema não é sentir vergonha. O problema seria transformar essa vergonha em humilhação para a criança.
O riso é inadequado naquela situação. Mas inadequado não significa necessariamente intencional — e muito menos prova de falta de empatia.
Nós, adultos, costumamos interpretar o sorriso como se ele fosse uma janela transparente: se riu, achou engraçado; se achou engraçado, não se importou. Mas nem sempre a expressão que aparece do lado de fora corresponde ao que está acontecendo por dentro.
Um estudo realizado em 2024 por Finkel e colaboradores observou que, em crianças autistas, a reação fisiológica ao estresse nem sempre correspondia às expressões faciais, vocais ou corporais que os adultos esperariam encontrar. Isso não demonstra que todo riso inadequado seja ansiedade ou estresse. Apenas nos adverte que não podemos descobrir o estado interno de uma criança olhando somente para o seu rosto.
O riso pode surgir diante de um som diferente, de uma expressão facial incomum, da tensão provocada pelo choro ou da confusão sobre o que está acontecendo. Pode ser uma resposta automática, uma forma desajeitada de descarregar a agitação ou até uma reação que a criança já aprendeu a repetir. Também é possível que ela tenha achado algum aspecto da cena engraçado. Um episódio isolado não nos permite saber.
Pesquisas sobre empatia mostram que algumas crianças autistas podem ter maior dificuldade para compreender o que o outro está sentindo e decidir o que fazer sem que isso signifique ausência de reação afetiva ao sofrimento.
Em outras palavras: seu filho pode ser afetado pela cena e, ainda assim, não saber o que fazer com aquilo.
Naquele momento, não lhe peça explicações. Para responder, a criança teria de examinar algo que talvez nem tenha percebido dentro de si.
Por isso, em vez de interrogar, primeiro ajude.
Você pode dizer apenas: — Ela está chorando. Venha comigo.
Afaste-se por alguns minutos e permita que o corpo de seu filho se reorganize. Se for necessário dizer algo à pessoa que está chorando, você mesma pode assumir essa reparação:
— Sinto muito. Ele não está conseguindo controlar o riso. Vou levá-lo para um lugar mais tranquilo.
Você não precisa defender seu filho como se nada tivesse acontecido, nem expô-lo diante de todos. Naquele instante, há duas tarefas: proteger quem está chorando e ajudar seu filho a sair de uma situação que ele ainda não consegue administrar.
Depois, não transforme o episódio em tribunal. Transforme-o em observação.
O choro era alto? Havia muitas pessoas? Seu filho ficou agitado, tapou os ouvidos ou começou a movimentar o corpo? O riso diminuiu quando ele saiu do ambiente? Isso já aconteceu antes? Em quais situações?
Em outro momento, quando todos estiverem tranquilos, ensine uma alternativa prática. Em vez de exigir simplesmente “não ria”, mostre o que ele pode fazer caso o riso apareça:
Alguém começou a chorar.
Se o riso vier, eu me afasto com um adulto.
Espero meu corpo se acalmar.
Posso ficar em silêncio, chamar alguém ou entregar um lenço.
Não preciso tocar, abraçar nem fingir uma expressão triste.
Pesquisas sobre as chamadas regras de expressão emocional mostram que algumas crianças autistas conseguem reconhecer essas regras em histórias hipotéticas, mas têm mais dificuldade para identificar sua função e utilizá-las na vida real. Saber repetir “não pode rir quando alguém chora” não garante que a criança consiga controlar a resposta quando a situação realmente acontece. É por isso que a alternativa precisa ser praticada com fotografias, cenas curtas, modelagem e pequenas encenações.
Seu filho precisa aprender que o riso pode machucar outra pessoa. Mas não precisa aprender isso sendo machucado também.
O objetivo não é obrigá-lo a representar tristeza. É ajudá-lo a perceber a situação, regular o próprio corpo e construir uma resposta que cause menos sofrimento. Isso se ensina com clareza, repetição e cuidado, e nunca com raiva ou vergonha.





