A estratégia de sobrevivência do Cerrado e da Caatinga

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Eu vivo nas terras mestiças: Cerrado e Caatinga, que ensinam que nem tudo que parece morto deixou de viver.

A árvore perde as folhas, parece desistir, mas está apenas economizando forças para fazer a travessia da seca.

Na Caatinga e no Cerrado, até as árvores sabem que sobreviver é uma arte.
Quando a seca chega, a paisagem muda. O verde desaparece, as folhas caem, os galhos ficam expostos ao sol, e muitas árvores assumem uma aparência quase fantasmagórica. Aos olhos apressados, parecem mortas.
Mas estão apenas fingindo.
Não é morte. É estratégia.


A Caatinga e o Cerrado aprenderam, ao longo de milhares de anos, que há momentos em que é preciso recolher-se.

A árvore abandona suas folhas para diminuir a perda de água. Guarda energia. Fecha algumas portas. Silencia por algum tempo.
Por fora, parece desistência.
Por dentro, a vida continua trabalhando.
É uma das lições mais bonitas da natureza: há vidas que sobrevivem justamente porque aprenderam a parecer mortas.

Quando finalmente chegam as chuvas, acontece o inesperado. Aqueles galhos secos começam a ganhar brotos. O que parecia perdido voltou a florescer. O chão muda de cor. A paisagem renasce quase de repente, como se a natureza estivesse apenas esperando a hora certa para revelar que nunca havia desistido.

Talvez nós também precisemos aprender com a Caatinga e o Cerrado.
Há períodos da vida em que precisamos perder folhas. Deixar algumas coisas para trás. Diminuir o ritmo. Guardar energia.
Silenciar diante de certas tempestades e atravessar determinadas secas sem anunciar ao mundo o que estamos enfrentando.

Nem todo silêncio é ausência.
Nem todo recolhimento é fraqueza.
Nem toda aparência de morte significa que a vida terminou.

Às vezes, é apenas a vida se protegendo.

A Caatinga e o Cerrado não desperdiçam água, energia nem esperança. Eles administram o pouco que têm para continuar existindo.

E talvez essa seja uma sabedoria que o ser humano tenha esquecido: sobreviver também é saber o que deixar cair para preservar aquilo que ainda precisa florescer.

As árvores da Caatinga e do Cerrado parecem mortas.

Mas estão apenas esperando a chuva.
E talvez nós também.