Você compra um presente, imaginando a alegria do seu filho. Ele abre, olha e pede o brinquedo antigo.
Em outro dia, você sugere um filme novo. Ele escolhe aquele que já viu tantas vezes que você sabe até quando o personagem vai espirrar.
A primeira reação pode ser:
— Mas por que você não experimenta uma coisa diferente?
Até porque nós, adultos, somos muito flexíveis. Desde que ninguém mude a nossa caneca, o lado da cama, o caminho para o trabalho, o horário do café ou o final de semana que já estava planejado.
Talvez a distância entre nós e nossos filhos não seja tão grande. Todos criamos pequenas previsibilidades para organizar a vida. A diferença é que, para algumas pessoas autistas ou com deficiência intelectual, uma mudança inesperada pode causar uma desorganização muito maior.
O problema nem sempre é o novo. É não saber o que virá com ele.
Um presente pode trazer perguntas que a criança não consegue formular: onde ficará o brinquedo antigo? Como esse funciona? O que esperam que eu faça? Vou precisar mudar minha rotina?
A resposta pode aparecer como recusa, silêncio, choro ou irritação. Aquilo que parece ingratidão talvez seja apenas uma tentativa de recuperar o chão.
A ciência chama de intolerância à incerteza a dificuldade de lidar com situações em que não sabemos o que acontecerá. Ela pode estar relacionada à ansiedade e à necessidade de manter rotinas. Isso não significa que toda pessoa autista rejeite novidades. Muitas gostam do novo — desde que tenham tempo e alguma informação sobre ele.
Seu filho talvez não precise de uma vida sem mudanças. Precisa de um mapa.
Se a professora faltar, por exemplo, não diga apenas:
— Hoje será diferente.
Explique:
— A professora Ana não virá. O professor João ficará com a turma. A sala e o horário continuam iguais.
Mostrar o que muda e o que permanece pode diminuir a incerteza. Fotografias, desenhos ou uma pequena sequência também ajudam:
Chegar à escola.
Conhecer o professor João.
Fazer a atividade.
Voltar para casa.
Quando possível, ofereça uma escolha dentro da mudança:
— A rua está fechada. Podemos ir por cima ou por baixo. Qual caminho você prefere?
E o filme repetido?
Talvez seu filho o assista porque gosta da música, percebe novos detalhes ou descansa numa história cujo final já conhece. Nós fazemos algo parecido quando revemos uma série, pedimos o mesmo prato ou ligamos para a pessoa que sempre sabe o que dizer.
Se a repetição não prejudica o sono, a escola, a saúde ou a convivência, talvez não exista urgência em proibi-la. Ela pode até servir de ponte: depois do filme conhecido, vocês experimentam alguns minutos de outro; depois do caminho habitual, conhecem uma rua nova.
O objetivo não é impedir todas as mudanças até porque isso seria impossível. Também não é necessário retirar aquilo que oferece segurança.
É ajudar seu filho a atravessar, aos poucos, a distância entre o conhecido e o novo.
Antes de chamar de birra, rigidez ou fixação, talvez possamos perguntar:
— O que ele está tentando tornar previsível?
Porque todos temos nossas repetições. A diferença é que chamamos as nossas de rotina. A deles, quase sempre, de problema.





