Olhe para mim quando estou falando com você!

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Seu filho parece compreender melhor quando não está olhando diretamente para você?

Talvez você já tenha vivido esta cena: está explicando alguma coisa, ele desvia o rosto e você pede:

— Olhe para mim quando estou falando com você.


Esse pedido não surge necessariamente de impaciência. Muitas vezes, você apenas quer ter certeza de que ele ouviu. Desde pequenas, aprendemos que olhar nos olhos demonstra atenção, respeito e educação. Se o filho não olha, é natural surgir a dúvida: será que entendeu?

Está distraído? Está ignorando a pessoa?

Quando isso acontece diante de familiares, professores ou desconhecidos, aparece outra preocupação: como o comportamento dele será interpretado? Em poucos segundos, você tenta ajudá-lo a compreender a conversa e, ao mesmo tempo, evitar que seja considerado desatento ou mal-educado. Nenhuma mãe consegue analisar tranquilamente todas essas coisas no meio da cena. Por isso, a frase sai quase automaticamente:

— Olhe para a pessoa.

Mas olhar e escutar nem sempre acontecem juntos da maneira que imaginamos.

O contato visual participa da comunicação. Por meio dele, percebemos algumas expressões, organizamos os turnos da conversa e mostramos ao outro que estamos presentes. Ainda assim, não é a única forma de prestar atenção e, isoladamente, não permite saber se alguém compreendeu o que foi dito.

Para algumas pessoas autistas, olhar diretamente nos olhos pode ser desconfortável ou exigir bastante esforço. O rosto humano oferece muitas informações ao mesmo tempo: os olhos mudam, a boca se movimenta, as expressões se transformam e ainda existe o conteúdo da fala para ser compreendido.

Isso pode se tornar ainda mais difícil quando a pessoa é desconhecida, faz muitas perguntas, fala depressa ou está num ambiente barulhento.

Nesses momentos, desviar o olhar pode ser uma maneira de diminuir a quantidade de informação visual e concentrar-se nas palavras.

Isso não significa que todas as pessoas autistas sintam desconforto ao olhar nos olhos. Algumas fazem contato visual espontaneamente; outras olham por alguns segundos; outras preferem olhar para a boca, para a testa ou para algum ponto próximo. O olhar também pode variar conforme a situação, a pessoa e o esforço necessário para responder.

Talvez você perceba que seu filho olha enquanto escuta, mas desvia quando precisa pensar. Ou que conversa naturalmente com pessoas conhecidas, mas evita olhar para desconhecidos. Pode ainda responder melhor quando vocês estão lado a lado, caminhando, cozinhando ou fazendo alguma atividade juntos.

Esses detalhes ajudam a compreender como ele organiza a atenção.

Você pode observar, por exemplo: ele executa uma orientação mesmo sem olhar? Responde de maneira coerente? Retoma alguma informação dita anteriormente? Desvia mais o rosto quando recebe várias perguntas seguidas? Demonstra atenção com palavras, gestos ou movimentos do corpo?

Se ele compreendeu, talvez o olhar não seja necessário naquele momento.

Isso não significa que você tenha de abandonar o ensino das habilidades sociais. Seu filho pode aprender que muitas pessoas usam o olhar para demonstrar atenção e que, em algumas situações, é útil sinalizar que está acompanhando a conversa. A diferença está em não transformar o contato visual na única resposta aceitável.

Ele pode balançar a cabeça, levantar o polegar, repetir uma palavra importante ou dizer: — Estou ouvindo.

Essa frase pode proteger a participação do seu filho sem transformar o encontro numa longa explicação sobre autismo. E, se algumas vezes você ainda disser “olhe para a pessoa”, isso não apaga tudo o que já aprendeu. Mudar uma reação tão automática exige tempo, principalmente quando você também está tentando administrar os olhares e as expectativas de quem está ao redor.

A pergunta, portanto, não precisa ser apenas:
— Por que meu filho não olha para mim?

Pode ser:
— Como ele demonstra que está me ouvindo?

Talvez a resposta esteja nos olhos. Talvez esteja num gesto, numa ação ou numa frase dita alguns segundos depois. Afinal, muitas mães já descobriram, dentro da própria casa, que uma pessoa pode não olhar para nós e escutar tudo — enquanto outra sustenta um contato visual impecável e não sabe sequer onde deixou o próprio sapato.