Talvez seja hora de Salinas olhar novamente para o rio. O presente nos pede que voltemos a olhar para ele.
A forma como uma cidade se relaciona com a sua história e com a sua paisagem diz muito sobre o seu futuro.
Uma imagem que ficará para história.
A fotografia do Grupo Memória Visual de Salinas parece registrar justamente esse instante de reencontro: de um lado, o rio; do outro, a cidade. Entre eles, uma multidão que parece testemunhar uma história que ainda não terminou.

Quem nasce à margem das águas,
traz na mente lembranças e histórias.
Quando esquece as águas, poços, cachoeiras que lhe deram origem,
esquece também a própria memória.
Nos primórdios da fundação de Salinas, suas primeiras ruas e casas voltavam para o Rio Salinas. A cidade nasceu de frente para as águas, reconhecendo nelas a razão de sua existência.
Salinas é uma cidade centenária do Norte de Minas. Sua ocupação teve início no final do século XVII, durante o processo de desbravamento da antiga região pelos portugueses, consolidando-se ao longo do século XVIII. Desde então, o Rio Salinas tornou-se o eixo em torno do qual a vida urbana, agrícola e social se organizou.

Ao longo de sua história, porém, a cidade passou a manter uma relação contraditória com o rio. Aos poucos, voltou-lhe as costas. Somente agora começam a surgir propostas e projetos de intervenção capazes de despertar entusiasmo e renovar a esperança.
Depois de tantos anos de afastamento, Salinas parece novamente voltar seu olhar para o rio, fazendo justiça à própria história e reconhecendo a importância das águas que a viram nascer.
Essas águas carregam sonhos, promessas, histórias e memórias. São testemunhas silenciosas da formação da cidade e da vida de seu povo.
O Rio Salinas possui enorme importância ambiental, econômica, histórica e cultural para os salinenses. Desde a fundação da cidade, é o principal manancial de abastecimento hídrico desse importante núcleo urbano.

Salinas abraçou o rio para crescer e se desenvolver. Com ele estabeleceu um vínculo decisivo para o desenvolvimento urbano e agrícola. Paradoxalmente, também o degradou ao transformá-lo, durante décadas, no principal receptor de esgoto.
O Rio Salinas possui múltiplos usos: abastecimento humano, aproveitamento industrial, irrigação, dessedentação animal, pesca, aquicultura, piscicultura, turismo, recreação e lazer.
Ao longo de seu percurso, o rio permanece ligado ao cotidiano das populações ribeirinhas, fornecendo água para as habitações. Seu leito ainda é utilizado para a lavagem de roupas, para a pesca artesanal e para a extração de areia, atividades que fazem parte da memória e da cultura local.
Gosto de olhar Salinas a partir da perspectiva das margens: do rio, dos ribeirões, das estradas, da rodovia e, futuramente, da ferrovia. Se Salinas é uma cidade de beira, é porque cresceu à custa de seus rios, que moldaram sua paisagem e sua identidade.
O Rio Salinas desempenha papel fundamental no desenvolvimento urbano, ainda que, em muitos trechos, esteja poluído, canalizado ou tenha sofrido profundas alterações em suas características naturais.
Como toda cidade ribeirinha, Salinas encontra em seu rio um elemento de vitalidade, identidade, pertencimento e potencial atração turística.
Os rios são espaços sociais em permanente transformação. Contam a história das cidades tanto quanto suas ruas e praças.
Salinas nasceu voltada para o rio, mas acabou lhe dando as costas.
Esse afastamento resulta das próprias dinâmicas históricas de crescimento urbano, que por muito tempo ignoraram o valor ambiental e cultural de seus cursos d’água.
A recuperação é possível.
Ainda há esperança. A sociedade começa, pouco a pouco, a discutir o futuro do Rio Salinas com mais intensidade. Cidadãos participam das discussões, ainda que de forma incipiente; universidades ampliam pesquisas sobre as múltiplas dimensões dos rios; e novas propostas de intervenção despertam entusiasmo e apontam caminhos para sua recuperação.
O poder público também procura dialogar com essas novas demandas da sociedade.
Salinas possui hoje programas e projetos voltados para a recuperação e revitalização do Rio Salinas, demonstrando que essa reconciliação é possível.
Entre essas iniciativas, destaca-se o projeto conduzido pela atual administração municipal, liderada pelo prefeito Kinca, que busca devolver ao Rio Salinas sua dignidade ambiental, paisagística e social, aproximando novamente a cidade de suas águas.
Mais do que recuperar um curso d’água, revitalizar o Rio Salinas significa restaurar uma parte da alma da cidade. Uma cidade que volta a contemplar o rio reencontra também sua história, sua memória e a esperança de construir um futuro mais harmonioso entre a natureza e as pessoas.





