A mãe que nunca tem férias

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

Seus filhos tiram férias da escola. Seu marido tira férias do trabalho. E você?

 

Eu não estou falando daquelas férias de mães com malas prontas, fotos bonitas, viagens planejadas e crianças sorrindo no fim de tarde na praia. Estou falando da maternidade real. Da mãe que continua trabalhando, mas agora com os filhos em casa. Da mãe que não tem colônia de férias, avó disponível, dinheiro sobrando ou uma rede organizada. Da mãe que ama os filhos, mas sente o corpo cansado antes mesmo do dia começar.


Essa pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis de responder quando falamos de maternidade. Porque, na vida real, as férias escolares nem sempre significam descanso para todo mundo, mas, para muitas mães atípicas, as férias são reorganização do mundo.

Para muitas mães de crianças e adolescentes com deficiência, a escola não é apenas um lugar de aprendizagem. A escola é também estrutura. É previsibilidade. É rotina. É tempo de respiro. É o lugar onde a criança tem apoio, horário, atividade, convivência e uma organização que ajuda o dia a fazer algum sentido. Quando essa estrutura pausa, quem sustenta a rotina nas férias? Na maioria das vezes, a mãe. É ela quem vivencia a rotina: lanche, remédio, passeios possíveis, limites do filho e crises que ninguém vê chegando. E, mesmo assim, termina o dia achando que não fez o suficiente com pensamentos: 

“Eu não brinquei o suficiente. Não levei para passear. Não consegui trabalhar direito. Não consegui descansar. E ainda fiquei com aquela culpa de não ter sido a mãe divertida que as férias pareciam exigir.” 

A maternidade tem esse truque cruel: mesmo quando a mãe está fazendo tudo, ela ainda pode sentir que está falhando. Talvez porque nos ensinaram que boa mãe é aquela que aguenta. Boa mãe é aquela que dá conta. Boa mãe é aquela que se sacrifica em silêncio. Boa mãe é aquela que está sempre disponível, sempre amorosa, sempre criativa, sempre paciente, sempre pronta para transformar qualquer dia comum em memória inesquecível.

Você pode amar seus filhos e se cansar deles.
Você pode ser grata pela vida deles e precisar de silêncio.
Você pode querer estar perto e, ao mesmo tempo, desejar um tempo só seu.
Você pode fazer o melhor possível sem fazer tudo.

Porque fazer o melhor possível, na maternidade atípica, não é preencher todos os dias com atividades bonitas. Às vezes, é proteger a rotina mínima. É evitar excesso de estímulo. É respeitar o tempo do filho. É simplificar a comida. É repetir o que funciona. É sair antes da crise. É voltar para casa sem se explicar muito.

É dizer não, pedir ajuda e aceitar que descansar também faz parte do cuidado.

Eu também estou tentando. Juro. E você?