Percebem que minhas colunas não são temas teóricos distantes da vida prática. Elas nascem do encontro com pessoas, lugares e experiências que ajudam a compreender quem somos.
Sou observador de gente, e gosto de enxergar, nos pequenos gestos e nas histórias simples, a grandeza da condição humana.”
Eu viajo pelas pessoas. Não por curiosidade vazia, mas por encantamento.
Escrevo sobre uma venda de interior, um vaqueiro, um agricultor, uma professora, um artesão, um poeta, uma rua antiga, uma árvore do Cerrado ou uma conversa que parecia comum.



Hoje escrevo sobre a Venda de Laércio Pena, em uma analogia à Venda de Lidirico, de Araçuaí. São personagens que fizeram da simplicidade a sua marca e de suas vendas muito mais do que um comércio: verdadeiros pontos de encontro, de convivência e de histórias que atravessam gerações.
Mais do que um estabelecimento comercial, criou um espaço onde o tempo conversa com a memória e cada freguês leva consigo um pedaço da história daquele lugar.
Apresento para vocês um homem simples, de sorriso fácil e mãos calejadas pelo trabalho, que fez da sua venda muito mais que um estabelecimento comercial.
Transformou-a em um ponto de encontro onde o café é pretexto para a conversa, a prosa tinha o tempo necessário e cada freguês saía levando, além das compras, um pouco da amizade que ali sempre encontrou. Por lá passam os maiores contadores de histórias, cito aqui Nilton Loiola e Camilo.
Há vendas que comercializam produtos. Outras comercializam lembranças.
A de Laércio sempre vendeu um pouco dos dois.
Nascido em Salinas, filho desta terra do Norte de Minas, Laércio construiu sua história em Salinas onde, há mais de três décadas, mantém um dos comércios mais tradicionais da cidade.
Visitei Laércio quando fui lhe apresentar a cachaça SS. Imaginava que faria apenas uma visita comercial. Voltei com muito mais do que um pedido. Voltei carregando histórias.
Há pessoas que contam histórias. Outras são a própria história. Laércio pertence a esse segundo grupo.
Logo no primeiro aperto de mão, a conversa ganhou vida. Não era uma entrevista. Era um encontro daqueles que só acontecem quando a simplicidade abre a porta antes mesmo de qualquer palavra.
Em pé, atrás do balcão, sempre atento, caminhando de um lado para outro, ele fala da infância em Salinas, da chegada a Salinas, dos primeiros tempos da venda, das mudanças da cidade, das famílias, dos amigos e de tantos acontecimentos que guarda com uma memória admirável.
Datas, nomes e acontecimentos surgem naturalmente, como quem apenas abre uma gaveta da lembrança.
Enquanto conversávamos, pensei imediatamente em outro personagem inesquecível do sertão mineiro: Seu Lidirico, eternizado na música de Miltinho Edilberto e Xangai, o dono da venda “que tem de tudo e cada coisa que tem eu explico”.
Sorri comigo mesmo.
Se existisse uma continuação daquela canção, certamente Laércio mereceria um verso.
Porque sua venda também parece ter de tudo. E, mais do que isso, ele também explica. Explica os produtos, explica a cidade, explica as pessoas e, sem perceber, explica um tempo em que as vendas eram muito mais que comércio: eram o coração da comunidade.
Ali, cada freguês leva alguma coisa. Uns levam café, açúcar ou farinha. Outros levam uma boa prosa. E muitos saem levando um pedaço da memória de Salinas.
É por isso que lugares assim não envelhecem. Tornam-se patrimônio vivo.
Fico feliz quando encontro pessoas como Laércio.
Homens cuja grande riqueza não está nas prateleiras, mas na generosidade de receber, na disposição de conversar e na capacidade de transformar uma simples visita em uma lembrança que merece ser escrita.
Enquanto existirem homens como ele, haverá sempre um lugar onde a história continua sendo contada de maneira simples, verdadeira e acolhedora.
E quem passar por Salinas faça uma visita. Talvez encontre muito mais do que procura.
Porque, como nas antigas vendas do cerrado e de Salinas, ali também há de tudo. E cada coisa tem uma boa história para ser explicada.


Laércio combina muito com minha última coluna: “Salinas da Minha Memória Eterna”, pois Laércio representa aqueles personagens anônimos que preservam, pela conversa e pela simplicidade, a memória de um povo.





