TDAH em adultos: quando a distração é um transtorno e quando é consequência do estilo de vida?

Confira a coluna Psicologia para o Dia a Dia desta semana, por Renato Mota

Nos últimos anos, cresceu significativamente o número de adultos que passaram a se identificar com sintomas como dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimentos frequentes, desorganização e sensação de nunca conseguir concluir tarefas. Esse movimento aumentou a procura por avaliações psicológicas e psiquiátricas em busca de um possível diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). No entanto, é importante destacar que apresentar sintomas semelhantes não significa, necessariamente, ter o transtorno. O TDAH é uma condição do neurodesenvolvimento, cujos sinais geralmente estão presentes desde a infância e precisam causar prejuízos relevantes em diferentes áreas da vida para que o diagnóstico seja estabelecido.

Ao mesmo tempo, especialistas têm observado o surgimento de um fenômeno cada vez mais comum: alterações da atenção relacionadas ao uso excessivo de telas e ao consumo constante de conteúdos rápidos e altamente estimulantes. Embora isso não seja um transtorno psiquiátrico oficialmente reconhecido como um diagnóstico específico, esse padrão pode provocar sintomas muito parecidos com os do TDAH, como dificuldade de manter o foco em atividades prolongadas, inquietação mental, necessidade constante de novos estímulos e piora da capacidade de concentração. A exposição contínua a vídeos curtos, notificações, redes sociais e multitarefa digital treina o cérebro a buscar recompensas imediatas, tornando mais difícil sustentar a atenção em tarefas que exigem esforço cognitivo e paciência.

A atenção desempenha um papel fundamental na formação das memórias. Antes que uma informação seja armazenada, ela precisa passar pela atenção concentrada, mecanismo que seleciona os estímulos relevantes entre milhares de informações recebidas a cada instante. Quando a atenção é interrompida repetidamente por notificações, mudanças rápidas de foco ou excesso de estímulos digitais, o cérebro processa essas informações de forma superficial. Consequentemente, ocorre menor ativação das redes neurais responsáveis pela consolidação da memória, especialmente em estruturas como o hipocampo, reduzindo a capacidade de aprender, recordar conteúdos e transformar experiências em memória de longo prazo.


Diante desse cenário, a avaliação psicológica torna-se uma ferramenta essencial para diferenciar um transtorno do neurodesenvolvimento de dificuldades cognitivas relacionadas ao estresse, ansiedade, privação de sono, depressão ou ao uso excessivo de tecnologia. Um diagnóstico preciso permite indicar intervenções adequadas, que podem incluir psicoterapia, psicoeducação, mudanças no estilo de vida e, quando necessário, tratamento médico. Mais do que buscar um rótulo, compreender a origem das dificuldades é o primeiro passo para recuperar a qualidade da atenção, da memória e do desempenho nas atividades do dia a dia.