Há cidades que mudam com o tempo. Outras permanecem intactas dentro de nós.
A Salinas da minha infância nunca envelheceu, nem desapareceu.
Ela continua viva, caminhando lentamente pelas ruas da lembrança.
Ainda atravesso aquela ponte como se o tempo tivesse parado.
Ela não ligava apenas duas margens; ligava um menino aos seus sonhos.
CADA SONHO ERA UM HORIZONTE QUE INSISTIA EM ME CHAMAR.
Cada passo sobre ela era um convite para descobrir o mundo, sem imaginar que, um dia, seria a própria memória que me faria voltar.
Depois vinha a Ladeira do São Geraldo, tão conhecida pelos pés apressados da infância.
Naquele tempo, nenhuma subida era difícil.
A curiosidade era sempre maior que o cansaço, e o horizonte parecia caber inteiro no olhar de uma criança.
Lá estava também o casarão da Fazenda Floresta, imponente e silencioso, cercado pelos coqueiros que balançavam ao vento como velhos guardiões da história.
Aqueles coqueiros não apenas enfeitavam a paisagem; davam sombra às conversas, aos sonhos e às tardes que pareciam não ter fim.
E havia o Rio Salinas… Ah, o Rio Salinas. Suas águas eram o nosso parque de diversões, nosso refúgio e nossa liberdade.
Cada mergulho lavava mais do que o corpo: lavava as preocupações que ainda nem existiam. O rio corria para frente, mas nós acreditávamos que aqueles dias seriam eternos.
Hoje, quando olho uma fotografia antiga, percebo que ela não registra apenas ruas, pontes e casas.
Ela guarda vozes, risos, cheiros, amizades e afetos. Guarda pessoas que partiram, abraços que ficaram e um tempo em que a felicidade morava nas coisas simples.
A cidade cresceu. Algumas paisagens mudaram. O rio já não é o mesmo, nem as ruas, nem nós. Mas existe uma Salinas que ninguém consegue modificar. Ela permanece intacta no território mais resistente que existe: a memória.
E talvez seja esse o verdadeiro significado da saudade. Não desejar voltar ao passado, mas agradecer por ele continuar vivendo dentro de nós.
A Salinas da minha memória é eterna. Porque há lugares que deixam de existir no mapa, mas nunca deixam de existir no coração.





