A Salinas da minha memória é eterna

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

Há cidades que mudam com o tempo. Outras permanecem intactas dentro de nós.

A Salinas da minha infância nunca envelheceu, nem desapareceu.

Ela continua viva, caminhando lentamente pelas ruas da lembrança.


Ainda atravesso aquela ponte como se o tempo tivesse parado.

Ela não ligava apenas duas margens; ligava um menino aos seus sonhos.

CADA SONHO ERA UM HORIZONTE QUE INSISTIA EM ME CHAMAR.

Cada passo sobre ela era um convite para descobrir o mundo, sem imaginar que, um dia, seria a própria memória que me faria voltar.

Depois vinha a Ladeira do São Geraldo, tão conhecida pelos pés apressados da infância.

Naquele tempo, nenhuma subida era difícil.

A curiosidade era sempre maior que o cansaço, e o horizonte parecia caber inteiro no olhar de uma criança.

Lá estava também o casarão da Fazenda Floresta, imponente e silencioso, cercado pelos coqueiros que balançavam ao vento como velhos guardiões da história.

Aqueles coqueiros não apenas enfeitavam a paisagem; davam sombra às conversas, aos sonhos e às tardes que pareciam não ter fim.

E havia o Rio Salinas… Ah, o Rio Salinas. Suas águas eram o nosso parque de diversões, nosso refúgio e nossa liberdade.

Cada mergulho lavava mais do que o corpo: lavava as preocupações que ainda nem existiam. O rio corria para frente, mas nós acreditávamos que aqueles dias seriam eternos.

Hoje, quando olho uma fotografia antiga, percebo que ela não registra apenas ruas, pontes e casas.

Ela guarda vozes, risos, cheiros, amizades e afetos. Guarda pessoas que partiram, abraços que ficaram e um tempo em que a felicidade morava nas coisas simples.

A cidade cresceu. Algumas paisagens mudaram. O rio já não é o mesmo, nem as ruas, nem nós. Mas existe uma Salinas que ninguém consegue modificar. Ela permanece intacta no território mais resistente que existe: a memória.

E talvez seja esse o verdadeiro significado da saudade. Não desejar voltar ao passado, mas agradecer por ele continuar vivendo dentro de nós.

A Salinas da minha memória é eterna. Porque há lugares que deixam de existir no mapa, mas nunca deixam de existir no coração.