Treinar no inverno queima mais calorias 

Confira a coluna Movimento & Saúde desta semana, por Loren Carneiro
Sair de casa para fazer atividade física pode ser bastante desafiador em dias de frio. Porém, após essa leitura você pode ter um incentivo maior! Sim, é verdade que treinar no frio gasta mais calorias. No entanto, esse gasto depende de alguns fatores.
Vamos entender melhor. De fato, o corpo precisa produzir mais calor em ambientes frios, isso se chama termogênese, ou seja, produção interna de calor. Isso gera um leve aumento no gasto calórico para manter a temperatura corporal. Durante o esforço físico, se o ambiente estiver bem frio, o corpo também precisa fazer o sangue circular de forma mais eficiente para aquecer as regiões mobilizadas.
Como funciona a queima de calorias no organismo?
O gasto calórico está diretamente ligado ao metabolismo, que é o conjunto de reações químicas responsáveis por manter o corpo em funcionamento. Em repouso, já há um consumo energético para manter funções vitais, como respiração e circulação sanguínea.
Os benefícios de treinar no frio (sim, existem!) 
Vale saber que o exercício no frio tem vantagens que o verão não oferece:
•Menos risco de superaquecimento: você sua menos, perde menos água e eletrólitos, e a frequência cardíaca tende a ser mais baixa para o mesmo esforço (o que pode melhorar o desempenho em exercícios de longa duração).
•Queima calórica pode ser um pouco maior: o corpo gasta energia extra para se aquecer. O efeito é modesto (cerca de 5-10% a mais, dependendo da intensidade), mas existe.
•Menos insetos, menos alergia: pólen e mosquitos são menos problemáticos no frio.
•Treinos ao ar livre são mais agradáveis (depois que aquece): correr ou pedalar sem o sol forte é um alívio para muita gente.
Ou seja, o frio não é inimigo do treino. É apenas um cenário diferente que exige preparo.
 
O aquecimento: seu melhor amigo no inverno 
Se há uma dica que você vai levar deste texto, é esta: no frio, o aquecimento é obrigatório, não opcional. Pular o aquecimento no inverno é o caminho mais curto para lesões musculares, articulares e até cardíacas.
Por que o aquecimento é ainda mais importante no frio?
•Vasoconstrição: com o frio, os vasos sanguíneos se contraem, reduzindo o fluxo de sangue para músculos e articulações. Músculos “frios” são menos elásticos e mais propensos a distensões, rupturas e tendinites.
•Líquido sinovial mais viscoso: as articulações têm um líquido lubrificante natural (líquido sinovial). No frio, ele fica mais grosso, como mel. Isso diminui a lubrificação e aumenta o atrito, podendo causar dores e lesões na cartilagem.
•Frequência cardíaca mais baixa em repouso: seu coração precisa de tempo para elevar os batimentos e bombear sangue adequadamente.
Como deve ser o aquecimento no inverno? 
•Duração maior: no verão, 5 minutos podem bastar. No inverno, reserve 10 a 15 minutos para aquecer.
•Intensidade progressiva: comece devagar e aumente gradualmente.
•Tipos de aquecimento:
•Cardio leve: caminhada rápida, trote leve, pular corda devagar, bicicleta ergométrica sem resistência.
•Movimentos articulares: rotações de tornozelo, joelho, quadril, tronco, ombros, pescoço e punhos (cada articulação merece atenção).
•Alongamentos dinâmicos (não estáticos): balanços de perna, agachamentos sem peso, avanços (lunges), braçadas. Evite alongamentos estáticos (ficar parado alongando) com o músculo frio, isso aumenta o risco de lesão.
•Meta do aquecimento: você deve terminar o aquecimento levemente suado, com a sensação de que o corpo está “ligado” e pronto para o esforço.
Exemplo prático para corrida: 5 minutos de caminhada + 5 minutos de trote muito leve + 2 minutos de alongamentos dinâmicos (balanços de perna, elevação de joelhos, chutes na bunda). Só então comece a corrida de verdade.
Como se motivar e manter a rotina no frio
A desmotivação é o maior desafio nessa estação.
Veja estratégias que funcionam: 
1.Prepare a roupa na noite anterior
A preguiça de pensar “o que vou vestir” é real. Deixe tudo separado – camada base, camada intermediária (como moletom), camada externa (corta-vento), meias, luvas, gorro. De manhã, é só vestir e sair.
2.Aqueça o ambiente e o corpo antes de sair
Tome um banho quente (não muito longo) ou vista a roupa e faça 2-3 minutos de polichinelos dentro de casa. Isso eleva a temperatura corporal antes mesmo de você encarar o frio lá fora.
3.Tenha uma meta pequena e clara
Comprometa-se com apenas “15 minutos de aquecimento”. Depois que você começa, é muito mais fácil continuar. O difícil é o primeiro passo.
4.Treine em casa nos dias mais rigorosos
Não é desculpa: dias de frio extremo, ventania ou geada podem ser perigosos (especialmente para as vias aéreas). Nesses casos, treine dentro de casa: polichinelos, agachamentos, flexões, abdominais, corda, ioga, dança.
5.Encontre um parceiro de treino
Ter um amigo, familiar ou grupo de corrida é um poderoso motivador. Vocês se cobram mutuamente e o compromisso social é mais forte que a preguiça.
6.Varie os horários
Se treinar de manhã é muito sofrido (o corpo está mais gelado e a temperatura ambiente é a mais baixa), experimente o horário do almoço ou o início da noite. O sol ajuda a aquecer o ambiente e o ânimo.
7.Recompense-se
Após o treino, programe algo prazeroso: um banho quente demorado, um chocolate quente (com moderação, claro), uma sopa nutritiva. Isso associa o treino a uma recompensa imediata.
Cuidados especiais para treinar no frio 
Respiração e vias aéreas no frio: Respirar ar muito frio e seco pode irritar as vias aéreas, causando tosse, broncoespasmo (especialmente em asmáticos) e até dor na traqueia.
Como proteger a respiração: 
•Respire pelo nariz nos primeiros minutos (o nariz aquece e umidifica o ar antes que ele chegue aos pulmões). Depois que o corpo aquecer, a respiração mista (nariz e boca) é aceitável.
•Em temperaturas abaixo de 0°C ou com vento forte, use uma gola térmica ou máscara de corrida sobre a boca e nariz. Isso cria uma câmara de ar quente antes da inalação.
•Asmáticos e pessoas com bronquite devem usar o broncodilatador de resgate (se prescrito) antes do exercício e carregá-lo durante o treino.
Hidratação: não esqueça! 
No frio, a sede diminui, mas a perda de água continua (pela respiração, urina e suor – sim, você sua no frio, só não percebe tanto). A desidratação leve já reduz o desempenho e aumenta o risco de lesões.
Regra simples: beba 200-300 ml (1 copo) de água 1-2 horas antes do treino e mais 100-200 ml a cada 20-30 minutos de exercício. Após o treino, reponha.
Roupas adequadas: a regra das três camadas 
Vestir-se corretamente é a diferença entre um treino prazeroso e um sofrimento congelante.
Camada 1 (base, junto à pele): deve ser de material sintético (poliéster, poliamida, lã merino) nunca algodão. O algodão absorve o suor e mantém a umidade contra a pele, esfriando o corpo rapidamente. Tecidos sintéticos “afastam” a umidade (wicking).
Camada 2 (intermediária, isolante): fleece (pelúcia sintética), lã ou microfibra. Retém o calor do corpo.
Camada 3 (externa, proteção): jaqueta corta-vento e resistente à água (não precisa ser impermeável a menos que esteja chovendo ou nevando). Deve ser leve e respirável.
Acessórios essenciais: 
•Gorro ou bandana: a maior perda de calor ocorre pela cabeça e pescoço.
•Luvas: mãos geladas atrapalham o treino e podem levar a queimaduras por frio (frieiras). Luvas de corrida finas são suficientes para a maioria dos locais.
•Meias de material sintético ou lã merino: nunca algodão. Meias úmidas + frio = risco de frieiras e bolhas.
•Protetor labial e creme para o rosto: o vento frio resseca e racha a pele.
Quando NÃO treinar ao ar livre no frio: 
•Sensação térmica abaixo de -15°C (risco de congelamento de extremidades)
•Vento muito forte (acima de 40 km/h) que dificulta a respiração e o equilíbrio
•Chuva congelante ou neve intensa (pista escorregadia e risco de queda)
•Se você tiver asma descontrolada, doença cardiovascular grave ou problemas de circulação (consulte seu médico)
Nesses casos, prefira treinar em ambiente fechado (academia, esteira em casa, escadas do prédio).