“Eu ensino meu filho a mentir.”

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

         O Mateus não sabe mentir.

Não consegue disfarçar o que sente, o que quer, o que rejeita. Tudo nele é imediato, genuíno, sem filtro. E conviver com isso, por dezesseis anos, me ensinou mais sobre a verdade do que qualquer outra coisa na minha vida. Não só a verdade dele. As verdades do mundo.

A verdade sobre escolas que dizem estar preparadas e não estão. A verdade sobre profissionais que trabalham com pessoas com deficiência pelo dinheiro e não pelo propósito. E aqui não se trata de trabalhar de graça. Todo mundo precisa do dinheiro, isso é um fato. Mas todo mundo também precisa acreditar naquilo que faz. Um engenheiro pode ser muito bem pago para construir um prédio. Mas se ele não acredita que aquela estrutura vai ficar de pé, todo mundo que mora ali está em risco. Trabalhar com pessoas com deficiência sem acreditar na capacidade delas é exatamente isso: construir sem acreditar na estrutura.


E depois vem uma verdade ainda mais dolorosa, a verdade sobre um sistema que lucra com a deficiência. Eu trabalhei muitos anos nesse segmento como terapeuta. Vi de dentro. E hoje, como mãe, essa verdade é muito mais clara e muito mais difícil de engolir. O que deveria ser cuidado virou, em muitos casos, uma máquina de fazer dinheiro. E reconhecer isso dói. Mas é real.

Também não consigo escapar da verdade sobre o preconceito. O meu, o das pessoas ao meu redor, o que a gente carregava com tanta naturalidade que nem percebia. Aquele preconceito embutido na expectativa de uma felicidade normativa, de uma vida dentro do padrão, como se existisse uma única resposta correta para o que é uma boa vida.

Mas a maior de todas as verdades que eu tenho que confessar, e que aprendi com ele, é : o Mateus está presente de verdade em cada lugar, em cada hora, fazendo o que quer fazer, sem performance, sem cálculo, sem se preocupar com o que os outros pensam. Ele simplesmente é.

E o que me dói é que às vezes eu tenho que ensiná-lo a não ser assim. A driblar. A disfarçar. A se adequar a um mundo que não sabe lidar com quem é verdadeiro o tempo todo. Se existe uma definição do que é ser humano de verdade, ela está no Mateus. Ele já sabe. Sempre soube. E a maior mentira que eu poderia contar é a de que fui eu quem ensinou as grandes coisas da vida para ele.