Meu alforge de caçador

Confira a coluna Sal da Terra desta semana, por Milton Santiago

No trote manso do meu cavalo, sigo pelas veredas da vida.

Na bela cela, levo sonhos.

Ao lado, o amigo cachorro campeiro farejador.


E na garupa, levo o velho alforge de caçador.

Nele guardo histórias, memórias, rastros, silêncios, lembranças e pequenas sobrevivências.

Não é feito apenas de couro, pano ou corda, é tecido de travessias.

No meu alforge cabem os dias de sol queimando o cerrado, o cheiro da terra molhada depois da chuva e os olhos atentos de quem aprendeu a observar o mundo antes de julgá-lo.

Todo caçador carrega algo além da caça.
Carrega histórias.
Carrega ausências.
Carrega a memória das trilhas percorridas.

Meu alforge guarda palavras que ainda não escrevi, fotografias que meus olhos fizeram sem câmera, canções antigas e pedaços do tempo que recolhi pelo caminho.

Há quem carregue luxo.
Eu carrego sinais.

E talvez a vida seja isso: seguir pelas veredas do mundo com um velho alforge na garupa, recolhendo sentidos enquanto o coração continua em movimento.