O excesso de opinião e a falta da escuta

Confira a coluna Aprenda com quem sabe desta semana, por Lete Lucena
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Vivemos era marcada pela superabundância discursiva. Nunca se falou tanto, nunca se publicou tanto, nunca se opinou com tamanha velocidade. Entretanto, paradoxalmente, a ampliação dos espaços de fala não produziu, na mesma proporção, aprimoramento da escuta. O resultado é fenômeno linguístico e social perceptível: o predomínio da emissão sobre a recepção, da resposta sobre a interpretação, da reação sobre a compreensão.

Sob a perspectiva da Língua Portuguesa, esse comportamento revela empobrecimento progressivo da competência discursiva. Comunicar não consiste apenas em formular enunciados gramaticalmente corretos; implica, sobretudo, estabelecer interlocução efetiva. Para isso, é indispensável compreender que a linguagem se constrói em regime de alteridade: toda fala pressupõe um outro capaz de interpretar, responder e ressignificar sentidos.

Redução do espaço dialógico

O excesso de opinião produz, frequentemente, hipertrofia do “eu” discursivo. Em ambientes digitais, observa-se a valorização de enunciados assertivos, categóricos e emocionalmente intensificados, em detrimento de construções argumentativas mais elaboradas. A consequência imediata é a redução do espaço dialógico. Não se busca compreender o argumento alheio, mas apenas reafirmar convicções previamente estabelecidas.


Do ponto de vista textual, isso se manifesta por meio de estratégias linguísticas recorrentes: uso excessivo de modalizadores de certeza, emprego reiterado de frases sentenciosas, simplificação semântica e redução da ambiguidade interpretativa. Em vez de argumentos, proliferam slogans. Em vez de reflexão, multiplicam-se reações instantâneas.

A importância de saber ouvir

A escuta, por sua vez, exige operações cognitivas e linguísticas complexas. Escutar não é apenas silenciar enquanto o outro fala; é realizar processamento interpretativo, reconhecer implícitos, identificar pressupostos, inferir sentidos e considerar contextos pragmáticos. Trata-se, portanto, de competência discursiva sofisticada, diretamente relacionada à leitura crítica e à proficiência comunicacional.

Nesse contexto, a própria noção de debate sofre deformações. Muitos diálogos contemporâneos abandonam a natureza argumentativa e assumem configuração performática. Fala-se para vencer, não para construir entendimento. A linguagem deixa de funcionar como ponte semântica e passa a operar como instrumento de validação identitária.

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Há ainda aspecto relevante: a velocidade da comunicação digital reduziu os intervalos de elaboração linguística. A escrita imediatista favorece respostas impulsivas, pouco revisadas e semanticamente rasas. Perde-se, assim, dimensão essencial da língua: a capacidade de organizar o pensamento com precisão, “nuance” e coerência argumentativa.

Desafios contemporâneos

Tal cenário impõe desafio pedagógico e cultural. Em tempos de excesso de fala, talvez a habilidade mais sofisticada seja justamente a escuta qualificada. Afinal, a competência comunicativa não se mede apenas pela capacidade de emitir opiniões, mas também pela disposição de interpretar o outro com atenção, rigor e profundidade.

Em última análise, a sociedade que desaprende a escutar compromete não apenas a qualidade de seus diálogos, mas também a própria complexidade de sua linguagem. Porque onde não há escuta, a palavra perde densidade; e, lugar em que a linguagem se empobrece, o pensamento inevitavelmente se reduz.

Nínive Lacerda
É jornalista formada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) em 2022, com experiência em videorreportagens, marketing e redação. Acredita na prática jornalística enquanto mediadora das negociações sociais.