Fazendo justo reconhecimento à um dos maiores religiosos e cidadão que marcou época na sociedade januarense e região, na noite deste sábado (30/05), na igreja Matriz Sagrada Família, Santa Missa e grandes manifestações em reverência aos 100 anos do nascimento, na Alemanha, do saudoso padre Afonso Müer, o eterno “Pai dos Pobres” de Januária e cidades jurisdicionada a Mitra Diocesana.

Na coluna desta semana, atendendo solicitação do renomado advogado Maurílio Arruda, amigo desde os tempos de coroinhas, o querido Juiz Federal, dr. Carlos Viana, januarense radicado em Vitória, no Espírito Santo, fez um emocionante relato de sua vivência e aprendizados com o saudoso religioso.
Diz dr. Carlos: Quando eu dei por mim, ou seja, lá pelos 6 anos de idade – isso no ano de 1970 -, o padre Afonso, alemão de nascimento, contava por volta de 44 anos. Conheci-o nessa época, pois minha mãe me levava consigo nas visitas de aconselhamento ou de cortesia que lhe fazia. Em uma dessas ocasiões, minha tia Hortência também foi, levando consigo seu filho, meu primo Geraldo. Ambas as mães pediram aos rebentos recitar uma trovinha para o padre. Geraldo meu primo recitou. Eu me escondi na barra da saia materna e apenas sussurrei um não, quando minha mãe pediu que eu recitasse também. Até veio à mente a trova “batatinha quando nasce esparrama pelo chão, mamãezinha quando dorme, põe a mão no coração”, mas a timidez falou mais alto e eu me calei.
Ainda por volta dos 6 anos, a escolinha onde eu estudava, tendo a querida Maria Alice Corrêa Alkmin, a Liçuca, como professora, organizou uma espécie de desfile de personagens importantes para a sociedade. Havia o policial, o médico, o professor e outros. Eu fui escolhido como o padre. Puseram em mim uma batina tipo antiga, com botões de cima a baixo, colocaram-me para usar uns óculos redondo, cuja quantidade de graus era tamanha que eu fiquei o tempo todo tonto e perto de vomitar, só não o fazendo a muito custo. Essa escolinha ficava na rua Lindolfo Caetano. Nós crianças, saímos em desfile pelas proximidades. Em frente a uma das bombas de gasolina do Posto Claudionor, por acaso encontramos o padre Afonso. A professora Liçuca mostrou ao padre todos os participantes e a mim, em especial, por ser o representante do clero. Lembro-me que Liçuca e o padre Afonso deram boas risadas ao verem o seu mini padre.

Minha mãe uma vez segredou-me que o padre Afonso fazia muito sucesso entre a parte feminina do rebanho, dada a sua beleza física. Até hoje não sei se o que minha mãe me confessou foi um pecado, mas que o padre Afonso era bonito, isso as fotos antigas o atestam.

Por volta dos 10 anos, virei coroinha. Esse motivo levou a que o convívio com o padre Afonso se tornasse muito próximo. Minha vida de acólito durou 4 anos, tempo suficiente para juntar em lembranças fragmentos agora me vêm. Minha casa ficava praticamente no mesmo quarteirão da casa paroquial e da igreja. A igreja, no meu tempo de criança, funcionava onde hoje é o centro social. Nos domingos, éramos despertados pelo alto-falante tocando as músicas clássicas que o padre Afonso tanto gostava. Esse fato, direta ou indiretamente, fez despertar meu gosto para, pela vida afora, apreciar as belas músicas que me chegavam.
O padre Afonso presenteava os coroinhas com os mais diversos brinquedos: miniaturas de carrinhos, carrinhos sem ser miniaturas, balas de alcaçuz, finos chocolates da Suíça e da Alemanha. Nos natais, no hall de entrada da casa paroquial, eram dispostos vários brinquedos, e os coroinhas, chamados pela ordem alfabética, podiam escolher o que mais lhes agradavam. Esses brinquedos eram claramente usados e doados, provavelmente por crianças da Alemanha. Para nós não importava se eram de segunda mão. Importava, sim, a alegria que nos trazia. Éramos apenas crianças e não tínhamos filtro para discriminar o brinquedo pelo fato de ser usado. Por isso hoje, afirmo, se se puder, não se perca a oportunidade de fazer uma criança feliz, dando-lhe para uso um brinquedo usado que for. Embora a criança de hoje seja o homem de amanhã, a inocência de ser criança facilita o viver. Nos quatro anos de convívio, nunca vi o padre Afonso bravo. Aliás, uma única vez ele se zangou conosco, quando nos orientou a fazer uma fila na porta da igreja para saudar os paroquianos que vinham para a missa de domingo e nós demoramos para atendê-lo.

Sobre a vocação, era óbvio que ele era talhado para o sacerdócio. Era paciente, era sorridente, era atencioso. Deixou para trás a Alemanha querida, a família querida, os amigos queridos e veio, juntamente com o padre Herbert Hohleder, dedicar-se ao pastoreio num distante e tórrido país de Terceiro Mundo. Trazia no semblante a marca de que era realizado e feliz – Tanto que por aqui exerceu todo o seu sacerdócio, do berço da ordenação ao repouso eterno do corpo físico. A luz do seu espírito sobrevive entre nós e a sua lição de vida jamais será esquecida por aqueles que puderam usufruir do seu convívio.





