É preciso correr o máximo que se consegue apenas para permanecer no mesmo lugar.
Se você quiser chegar a algum outro lugar, precisa correr pelo menos duas vezes mais rápido.”
Existe uma experiência que só as mulheres podem compartilhar: a maternidade, além disso existem contribuições inovadoras que somente as mães podem reconhecer como descobertas libertadoras: a mamadeira, chupeta, babá eletrônica, mas nada se compara a creche e a escola.A frase da Rainha Vermelha que abre este texto está em um capítulo do livro The Mask of Motherhood, de Susan Maushart, e poderia ter sido escrita por qualquer mãe. Afinal, ela tem razão, a frase da Rainha Vermelha descreve a experiência da maternidade. Não como metáfora poética, mas como diagnóstico social. Corremos. Corremos o dia inteiro. E, ainda assim, temos a sensação persistente de que não avançamos. De que estamos sempre devendo algo a alguém. De que falhamos antes mesmo de começar.
A gente escuta: “Aguenta firme” porque, no fundo, ninguém explicou o que viria depois do enxoval, do parto, das noites em claro, do leite vazando, da cinta apertada. Aguenta firme como quem diz que isso é da vida, que vai passar, que toda mulher passa por isso. Entramos na maternidade carregando expectativas e promessas de realização pessoal. A profissional ninguém comenta. A geração de nossas mães viveu sob oportunidades restritas, muitas vezes sufocantes, mas definidas. A nossa aprendeu a viver em excesso. Excesso de opções, de expectativas, de demandas.
Somos treinadas para fazer tudo e para fazer parecer fácil. Talvez o que mais desorienta as mulheres não seja o cansaço em si, mas a distância dos “ex” conhecida como expectativa e experiência. A expectativa são as cenas de propaganda de manteiga, todos felizes no café da manhã, a mãe sentada comendo em paz e sorrindo. A experiência, raramente estamos sentadas sorrindo, mas correndo, observando se as mochilas estão com tudo certinho, se os uniformes ou roupas de passeio estão amassadas, enquanto monitoramos o relógio para ninguém sair atrasado. Se o café da manhã é assim, nem vale a pena comentar o restante do dia. Esse exemplo foi pra dizer que esperávamos parceria igualitária, afinal crescemos com a expectativa que teríamos uma maternidade diferente de nossas mães. E em algum momento tivemos a sensação difusa de termos sido enganadas, não porque a maternidade seja um erro, mas porque nos foi apresentada de forma incompleta.
Nada do que acontece no cuidado infantil acontece fora de um emaranhado de histórias e de influências sociais que antecedem o nascimento daquela criança. A maternidade, portanto, não é um pano de fundo do desenvolvimento humano da criança, mas parte constitutiva dele. Ainda assim, seguimos produzindo conhecimento como se fosse possível falar de crianças sem falar de mães. Escrevemos livros inteiros sobre filhos, seus comportamentos, seus marcos, seus riscos, seus desempenhos, sem nos deter seriamente sobre o que significa sustentar uma vida no cotidiano. Falamos do fruto como se ele pudesse ser compreendido fora da árvore. Como se bastasse descrevê-lo para entender de onde vem, como cresce e por que responde como responde.
Quando falamos apenas sobre crianças e não com as mães, reforçamos a ideia de que elas existem como meio, como recurso, como executoras de orientações. Não como sujeitos que pensam, sentem, interpretam e produzem conhecimento a partir da própria experiência. A ironia é que, ao fazer isso, sobrecarregamos ainda mais quem sustenta tudo no cotidiano. A divisão de gênero do trabalho sustenta esse silêncio, até porque o cuidado foi naturalizado como feminino.
“Aguentar firme” substituiu políticas públicas, divisão real de responsabilidades e reconhecimento social. O que deveria ser sustentado coletivamente foi privatizado na vida de muitas mulheres. Se algo vai mal, a mãe aparece como causa provável. Não há como falar de desenvolvimento humano sem compreender quem o sustenta.
O “aguenta firme” tornou-se um dispositivo cultural justamente porque normaliza a sobrecarga e individualiza aquilo que deveria ser compartilhado. Ele não convoca apoio, convoca resistência solitária. Ensina a correr sem sair do lugar, como na metáfora da Rainha Vermelha: muito esforço apenas para permanecer onde se está. Mas já não basta aguentar.
Aguentar, sem compreensão, produz exaustão; aguentar, sem partilha, produz culpa. Avançar não é correr mais rápido sozinha. É sair da lógica do “Aguenta firme” e caminhar, com apoio, rumo a um conhecimento que liberta e empodera.





