Falta de vacinas contra clostridioses preocupa produtores rurais no Norte de Minas

Desabastecimento do imunizante, essencial para prevenir doenças de alta letalidade, afeta todo o país; normalização é esperada apenas para o segundo semestre
Foto: Arquivo Pessoal/ José Moacyr Basso

O cenário da pecuária no Brasil vive um período desafiador devido à falta de vacinas contra clostridioses, um conjunto de doenças causadas por toxinas de bactérias do gênero Clostridium, responsáveis por enfermidades como botulismo, tétano e manqueira.

Devido à alta taxa de letalidade, o desabastecimento preocupa produtores rurais e pode comprometer a proteção do rebanho. Em Montes Claros, o pecuarista José Moacyr Basso relata dificuldades para encontrar o imunizante justamente em um período importante do calendário sanitário.“Estamos agora no mês de vacinação e não encontro vacina em nenhum estabelecimento”, contou.

Pecuarista há mais de 40 anos, ele conhece de perto os prejuízos provocados pela falta de proteção do rebanho e teme, principalmente, pelos bezerros que deveriam receber a primeira dose nesta fase de desmame.


“Antigamente, quando não existia o hábito de vacinar contra a clostridiose, morria muito gado por ‘picada de cobra’. Eu mesmo perdia por ano em torno de 30 animais. Quando passei a vacinar contra clostridiose duas vezes por ano, naquele ano morreram apenas três cabeças”, relatou.

Foto: Arquivo Pessoal/ José Moacyr Basso

Redução na oferta e alta nos preços

A escassez também é percebida por quem atua na comercialização dos imunizantes. Proprietária da Farmácia do Boi e do Mercadão Rural, Luiza Borém afirma que a redução na oferta se intensificou nos últimos dois meses, com pedidos chegando incompletos ou sem previsão de entrega por parte dos fabricantes.

Mercadão rural em Montes Claros. Foto: Arquivo Pessoal/ Luiza Borem

Segundo ela, o problema se agrava porque maio costuma ser um período de alta procura pela vacinação na região. “Foi muito ruim para o cenário sanitário e comercial que justamente nesse período de maior demanda as vacinas entrassem em falta. ”, destacou.

Além da dificuldade em encontrar o produto, os produtores enfrentam outro desafio: a alta nos preços.

“Os produtores estão extremamente preocupados com a saúde do rebanho e também com o aumento dos valores das vacinas disponíveis no mercado, já que a procura está muito alta e a quantidade ofertada é insuficiente para atender toda a demanda”, afirmou.

Farmácia do Boi e Pet em Montes Claros. Foto: Arquivo Pessoal/ Luiza Borem

Nota divulgada pelo Mapa

Em nota, divulgada em 7 de maio, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que o desabastecimento está relacionado, principalmente, a decisões de mercado adotadas por fabricantes, que descontinuaram a produção e a comercialização de vacinas contra clostridioses entre o fim de 2025 e janeiro deste ano.

Segundo a pasta, medidas emergenciais vêm sendo adotadas para ampliar a fabricação nacional, autorizar importações e acelerar a liberação dos imunizantes. Ainda conforme a nota, “nos meses de março e abril de 2026, o total de 14.640.910 doses de vacinas contra clostridioses, entre produtos de fabricação nacional e importados”.

O ministério também informou que há expectativa de autorização de mais 10 milhões de doses ainda em maio. A projeção do setor é de que mais de 100 milhões de doses estejam disponíveis até o fim do ano.

O que diz o Sindicato

Segundo o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Montes Claros, Alexandre de Aguiar Rocha, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), em conjunto com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), tem articulado, junto ao Mapa, a importação de vacinas para minimizar os impactos do desabastecimento .

“Acreditamos que só no segundo semestre nós teremos a normalização do fornecimento”, afirmou.

  • Medidas preventivas

Enquanto isso, a orientação do Sindicato aos produtores é reforçar medidas preventivas, como a correta mineralização do rebanho, o descarte adequado de carcaças de animais mortos e o cuidado para evitar que os animais tenham acesso a água contaminada.

Segundo o fiscal agropecuário e médico-veterinário do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Marco Túlio Pelaquim, esses cuidados são fundamentais porque as bactérias causadoras das clostridioses podem estar presentes naturalmente no solo, na água e até nos alimentos consumidos pelos animais.

A orientação é que as medidas de prevenção sejam intensficadas nas propriedades. Foto: Arquivo Pessoal/José Moacyr Basso

De acordo com o especialista, a contaminação também pode ocorrer em tanques e bebedouros, especialmente quando há matéria orgânica em decomposição, como carcaças de animais.

“A maioria dessas doenças não tem cura e pode levar à morte, causando um grande prejuízo ao produtor”, alertou.

Marco Túlio reforça que, diante da falta dos imunizantes, a prevenção deve ser intensificada nas propriedades, mas destaca que a vacinação continua sendo a principal forma de proteção contra as clostridioses.

“Temos que lutar para que a vacina volte e com bastante eficiência de novo”, concluiu.

Nínive Lacerda
É jornalista formada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) em 2022, com experiência em videorreportagens, marketing e redação. Acredita na prática jornalística enquanto mediadora das negociações sociais.