A casa é outra. A mãe é a mesma

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

O café da minha mãe fumegava na cozinha enquanto meu pai colocava a cadeira de rodas dentro do carro. Ele gostava de participar de ações beneficentes e me levava para ver a vida “de verdade”. O ano era 1991 e eu tinha 15 anos quando conheci a deficiência pela porta que quase sempre se abre primeiro, a experiência humana. Foi na casa de Maria Eduarda, carinhosamente chamada pela família de Duda, uma família inscrita em um projeto de apoio social para pessoas carentes no interior de Minas Gerais, Brasil. Naquele dia, acordamos cedo. Quando entrei no carro com ele, no banco de trás havia uma cadeira de rodas, um objeto do qual eu nunca havia chegado perto. A cadeira cheirava a metal frio e novo. Era brilhante, pesada e balançava a cada buraco da estrada. Era um contraste quase irônico com o calor do Brasil e com a precariedade social que eu ainda não sabia nomear. 

             A casa da Duda tinha paredes descascadas, quintal de terra vermelha, uma árvore e um cachorro magro deitado à soleira da porta. Assim que batemos no portão, saiu lá de dentro uma mulher com os cabelos amarrados, sorriso no rosto e chinelos encardidos da poeira e do tempo.

 Ela passou as mãos no cabelo, arrumou a roupa e, disse:  


— Entrem, por favor, acabei de fazer café.  

Assim que nos aproximamos da porta, o cachorro levantou-se lentamente e nos acompanhou até a menina. A sala estava quente, saturada do cheiro de pomada de assaduras e de café coado na hora. Próximo à porta da sala, em um carrinho de bebê velho, estava a Duda, pequena, magra, frágil, com o corpo entregue ao próprio peso, marcado pela deficiência que atrofia. 

A mãe nos chamou e apresentou a menina:  — Esta é a Duda, cumprimente as pessoas, filha, olha o que trouxeram para você.  Com enorme esforço para virar a cabeça e ver a cadeira de rodas, Duda sorriu como quem diz “obrigada”. O mesmo esforço que ela fez para virar a cabeça era o meu esforço para não chorar. Eu me via de fora, perplexa, tocada, desconfortável, tentando sorrir para ela com a mesma alegria. 

              Despedimo-nos com a imagem da menina Duda sorridente e de sua mãe com a feição visivelmente cansada e, talvez por isso, ela nem chegou a dizer o próprio nome. Todos a conheciam apenas como a mãe da Duda, a menina de corpo magro e atrofiado pela paralisia cerebral. Anos depois, eu voltaria a encontrar a “vida de verdade” no rosto de mães e crianças como a Duda. Essas histórias também se repetiam nas salas de reabilitação de adultos, mães segurando fichas, laudos, pastas enormes, acompanhando filhos que já eram homens, mas que precisavam de cuidados intensos após acidentes de carro, moto ou de trabalho. Sob a lupa, a cena se repetia, o Estado ausente e a mãe presente. Onde o Estado não chegava, elas permaneciam. A vida real surgia nesses encontros com Duda, com as instituições e com as mães exaustas e ia se depositando dentro de mim, silenciosa, como algo que um dia eu reconheceria.

             A diferença é que, agora, a casa é outra. Não é mais a sala quente da casa da Duda, no interior do Brasil, com cheiro de pomada e paredes descascadas. É a minha. O que vejo, enquanto escrevo, não é a mãe dela encostando o peso do dia numa cadeira velha ou abrindo o portão que rangia para que a cadeira de rodas tão esperada chegasse para seu descanso. Sou eu, ajeitando meu próprio corpo cansado depois de escrever este texto. E a luz que entra pela janela também mudou, não é mais o sol duro de Minas refletindo no metal da cadeira de rodas, mas a escuridão fria do inverno em Portugal. No lugar da cadeira de rodas da Duda, há brinquedos do meu filho espalhados pelo chão do escritório. É um cenário completamente diferente, mas existem algumas semelhanças, eu também estou como a mãe da Duda, cansada, presente, tentando dar conta, esperando o que não chega, fazendo mais do que parece possível. E, quando revisito essas memórias, encontro meu filho rindo baixinho diante dos vídeos no telefone. O mesmo tipo de sorriso que a Duda me deu tantos anos atrás, capaz de mudar tudo sem dizer nada. O sorriso da esperança. A casa é outra, a vida é outra, o papel é outro. A dor é a mesma e, curiosamente, também é o mesmo cheiro de café que insiste em permanecer no ar, como se algumas formas de amor e exaustão atravessassem o tempo sem nunca ir embora.