Dia das Mães é feliz para todos?  

Confira a coluna Aprenda com Quem Sabe desta semana, por Lete Lucena

O segundo domingo de maio costuma chegar cercado de propagandas emocionantes, flores, homenagens e frases sobre amor incondicional. Nas redes sociais, multiplicam-se fotos antigas, declarações carinhosas e lembranças afetivas. Para muita gente, o Dia das Mães é, de fato, celebração feliz. Mas é importante lembrar: nem toda filha sente alegria ao comemorar essa data.

Existe ideia quase obrigatória de que toda relação entre mãe e filha é perfeita, acolhedora e cheia de afeto. A própria linguagem usada pela sociedade reforça isso quando repete frases como “mãe é tudo igual” ou “amor de mãe é o maior do mundo”. Entretanto, a realidade humana é muito mais complexa do que slogans emocionais.

Há filhas que cresceram sem presença materna. Outras conviveram com abandono, violência, críticas constantes ou silêncio emocional. Algumas perderam suas mães cedo demais. Outras ainda vivem relações difíceis, marcadas por mágoas que não desaparecem, apenas, porque o calendário determina um dia de homenagem.


Por isso, enquanto algumas pessoas celebram, outras apenas tentam atravessar a data sem sofrimento. E isso não deveria ser motivo de culpa. Sentimentos não obedecem a campanhas publicitárias nem tradições sociais.

A Língua Portuguesa, aliás, mostra como as palavras carregam expectativas. O verbo “dever” aparece com frequência nessa época: “você deve agradecer”, “deve visitar”, “deve homenagear”. Mas relações afetivas não podem ser resumidas a obrigações automáticas. O afeto verdadeiro nasce da convivência, do cuidado e do respeito — não apenas de laços biológicos.

Reconhecer que o Dia das Mães pode ser doloroso para algumas filhas não diminui a importância da maternidade. Pelo contrário: amplia nossa capacidade de empatia. Afinal, maturidade social também significa compreender que existem histórias diferentes daquelas mostradas nos comerciais de televisão.

Talvez a maior homenagem possível às mães seja justamente construir relações mais humanas, honestas e acolhedoras — sem exigir que todas as pessoas sintam a mesma coisa diante da mesma data, afinal: a ferida só dói em quem sente!