Falta pulso firme nessa mãe

Confira a coluna Toda Mãe é Cientista desta semana, por Cylene Medrado

“Nossa, mas um menino tão grande fazendo birra desse jeito?” A frase sai rápida, quase automática. Vem acompanhada de um olhar de reprovação para a criança e, principalmente, para a mãe. Como se ela não estivesse educando direito. Como se faltasse limite. Como se tudo pudesse ser resolvido com uma voz firme e uma boa dose de comparação.

Existe um hábito silencioso entre muitas mães: transformar a própria experiência em regra universal. Comparar crianças, comportamentos e formas de educar como se todas as famílias atravessassem as mesmas condições. Como se desenvolvimento infantil fosse uma linha reta e previsível. Como se bastasse “saber impor limites”.

Mas nem toda crise é birra. Nem toda reação intensa é falta de educação. Algumas crianças vivem dificuldades que não são visíveis para quem olha de fora. Sobrecarga sensorial, dificuldade de comunicação, rigidez cognitiva, ansiedade, exaustão emocional. Há mães tentando administrar tudo isso em público enquanto também lidam com o próprio constrangimento social de serem observadas o tempo inteiro.


O problema é que muita gente ainda interpreta comportamentos infantis apenas pela aparência. Se a criança fala, anda ou parece “grande demais”, espera-se dela um funcionamento considerado típico. Quando isso não acontece, a culpa quase sempre recai sobre a mãe. Ela vira alvo de conselhos atravessados, comparações desnecessárias e diagnósticos improvisados feitos por desconhecidos no corredor do supermercado, na porta da escola, sala de espera de consultórios, parquinhos, e por aí vaí…

Enquanto muita gente oferece julgamento, poucas pessoas oferecem ajuda. Quase ninguém pergunta se aquela mãe está bem, se ela precisa de apoio ou se aquela criança possui alguma especificidade. A crítica costuma chegar antes da sensatez. E isso cria um ambiente cruel entre mulheres que deveriam compreender umas às outras com mais honestidade e menos competição silenciosa. Afinal, todas são todas mães e por isso ……

Talvez esteja na hora de algumas mães trocarem a comparação pela observação. Nem toda maternidade é igual. Nem toda criança responde da mesma forma ao mundo. E maturidade não é ter um filho que “não incomoda”. Maturidade é entender que a experiência da outra mãe pode ser muito diferente da sua, mesmo quando vocês estão lado a lado na mesma calçada.

Neste Dia das Mães, talvez uma das homenagens mais honestas entre mulheres seja escolher menos julgamento e mais escuta. Nenhuma mãe conhece completamente a rotina, o cansaço, as culpas e os desafios da outra. Por trás de toda criança existe uma mãe tentando acertar com os recursos emocionais, financeiros e físicos que possui naquele momento. E talvez a maternidade fique menos pesada quando mulheres entendem que acolher umas às outras também é uma forma de cuidado.