O silêncio que grita: a cura do desamor pela força da palavra

Confira a coluna Aprenda com Quem Sabe desta semana, por Lete Lucena

No estudo da Língua Portuguesa, aprendemos que a comunicação somente se realiza de forma plena quando a mensagem emitida pelo locutor é compreendida pelo interlocutor. Entretanto, nos relacionamentos afetivos, muitas vezes surge fenômeno preocupante: o ruído absoluto. Trata-se daquele instante em que um já não consegue escutar o outro. As palavras são pronunciadas, porém se perdem no vazio ou colidem contra muralhas erguidas pelo ressentimento. Assim, quando o amor chega a esse estágio, a comunicação deixa de ser ponte e transforma-se em arma ou, pior ainda, em deserto.

Além disso, no campo da semântica, sabemos que o sentido da frase depende do contexto em que ela é produzida. Contudo, quando a convivência está marcada por mágoas e julgamentos, o contexto se contamina. Dessa forma, frase simples como “precisamos conversar” já não é entendida como convite ao diálogo, mas como anúncio de conflito. Por isso, a palavra perde sua leveza e passa a carregar pesos antigos.

Consequentemente, a ferida emocional continua aberta porque a linguagem deixou de acolher. Quando um parceiro decide não ouvir o outro, simbolicamente nega-lhe existência. O silêncio punitivo, a interrupção constante e a indiferença tornam-se gramáticas da dor. São formas de comunicação que machucam mais do que muitas palavras duras.


Todavia, se a palavra também fere, ela igualmente pode curar. Para estancar esse sangramento afetivo e restaurar a convivência, alguns caminhos são essenciais. Em primeiro lugar, a escuta ativa deve ser compreendida como verbo de ação. Ouvir não é apenas captar sons; é oferecer presença. Escutar exige silenciar a voz interna que prepara defesas enquanto o outro ainda fala. Somente quem escuta de verdade permite que o outro exista por inteiro.

Em seguida, é necessário substituir o “você” pelo “eu”. Na comunicação não violenta, em vez de acusar com frases como “você sempre faz isso”, torna-se mais saudável revelar sentimentos: “eu me sinto triste quando isso acontece”. Assim, a sintaxe da discussão se modifica, pois a acusação dá lugar à vulnerabilidade sincera.

Além disso, existe o poder do vocabulário afetivo. Expressões de validação e cuidado têm força restauradora. Às vezes, a ferida começa a cicatrizar quando alguém diz: “Eu ouço o que você está sentindo” ou “Entendo a sua dor”. Pequenas palavras podem devolver dignidade a corações cansados.

Portanto, a comunicação é a linha vital de qualquer relação. Se a ferida permanece aberta, o remédio não está no isolamento, mas no reencontro promovido pelo diálogo. É preciso coragem para voltar a falar e, sobretudo, humildade para voltar a ouvir. Afinal, quando duas pessoas deixam de se escutar, restam apenas monólogos desesperados por atenção.

Que saibamos usar a nossa Língua Portuguesa não para ferir, mas para reconstruir pontes. E que o silêncio, antes sinal de distância, possa transformar-se em pausa de compreensão, enquanto a palavra se torna instrumento de cura e permanência do amor.