O Brasil perdeu o Oscar, o que eu senti com isso?

Confira a coluna Aprenda com Quem Sabe desta semana, com Lete Lucena

Nos últimos dias, acompanhamos com expectativa a possibilidade de o Brasil conquistar Oscar com o filme O Agente Secreto. A mobilização foi grande, porque quando obra brasileira chega a esse tipo de reconhecimento internacional, não é apenas o cinema que está sendo observado. É a cultura de um país inteiro. É a língua, é a forma de contar histórias, é a capacidade artística de um povo. Por isso, para muitos brasileiros, a torcida era simples e natural. Torcer para que o Brasil fosse reconhecido.

Mas algo curioso também apareceu nesse processo.

Algumas pessoas comemoraram a derrota. Não porque analisaram tecnicamente o filme e acharam que outra obra era melhor. Não porque discutiram roteiro, fotografia, atuação ou direção. Em muitos casos, a comemoração veio simplesmente porque associaram o filme, ou pessoas envolvidas nele, a determinada ideologia política. E quando isso acontece, a conversa deixa de ser sobre arte, competência ou talento. Ela passa a ser sobre rótulos.


O protagonista do filme, o ator Wagner Moura, é um dos artistas brasileiros mais respeitados internacionalmente. Sua trajetória inclui trabalhos no cinema nacional, em grandes produções internacionais e em séries que alcançaram o mundo inteiro. Independentemente de qualquer posicionamento pessoal ou político que ele tenha, existe algo que não pode ser negado com honestidade intelectual: trata-se de profissional extremamente competente. Reconhecer isso não significa concordar com tudo que ele pensa. Significa apenas olhar para o trabalho com maturidade.
É exatamente aqui que entra o papel da comunicação que cura. Quando a comunicação é imatura, ela reduz pessoas a uma única característica. Se alguém pensa diferente de mim, então automaticamente tudo o que essa pessoa faz perde valor. Esse tipo de lógica empobrece qualquer diálogo. A competência de um artista, de um professor, de um cientista ou de qualquer profissional não nasce da ideologia política que ele defende. Ela nasce de estudo, de dedicação, de talento, de experiência acumulada ao longo dos anos.
Uma sociedade madura aprende a separar essas coisas. É possível discordar profundamente da visão política de alguém e, ainda assim, reconhecer que essa pessoa realiza trabalho de excelência. Isso não é contradição. Isso é inteligência emocional e intelectual.

Quando conseguimos fazer essa separação, a comunicação se torna mais justa, mais equilibrada e mais humana. Caso contrário, tudo vira disputa de torcida, e o mérito deixa de ser avaliado com seriedade.

Em uma democracia, as pessoas têm o direito de pensar diferente. Esse é justamente um dos pilares que sustentam sociedades livres. O problema não está na divergência. O problema começa quando a divergência passa a ser usada como critério para negar o valor do outro. Quando chegamos a esse ponto, deixamos de avaliar competência e passamos a julgar pessoas apenas por alinhamento ideológico.

Comunicação que gera autoridade é aquela que consegue olhar para a realidade com mais profundidade. Ela não se guia apenas por paixões momentâneas ou por disputas de narrativa. Ela reconhece que o mundo é mais complexo do que os rótulos que tentamos colocar nas pessoas. E reconhecer o talento de alguém que pensa diferente de você não enfraquece sua posição. Pelo contrário. Mostra maturidade, segurança e senso de justiça.

Talvez o maior aprendizado desse episódio não esteja no prêmio que veio ou que não veio. Está na forma como escolhemos reagir. Porque sociedade que aprende a reconhecer valor, mesmo em meio às diferenças, constrói pontes. Já, sociedade que transforma tudo em guerra ideológica começa, pouco a pouco, a perder algo muito mais importante do que qualquer estatueta.
Ela perde a capacidade de admirar o talento que nasce dentro da própria casa.